Sede do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), em São Paulo — Foto: Divulgação / FGC
Sede do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), em São Paulo — Foto: Divulgação / FGC

Uma cláusula pouco conhecida selou o destino do Banco Master. O contrato de empréstimos emergenciais com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) previa a suspensão automática. Bastava a instituição ou seu controlador virarem alvo de investigação.

A informação foi revelada pela Folha de S. Paulo. Posteriormente, o GLOBO confirmou os detalhes dessa condição contratual.

Esse tipo de proteção é comum em contratos empresariais. Especialmente quando os valores envolvidos são elevados. Portanto, serve como garantia para quem empresta o dinheiro.

Cronologia da crise: de R$ 4 bi a R$ 16 bi em dívidas

Em maio de 2025, o FGC emprestou R$ 4 bilhões ao Master. O objetivo era saldar compromissos urgentes. Afinal, o banco enfrentava sérios problemas de liquidez desde março.

No mesmo mês, surgiu uma aparente solução. O BRB (Banco Regional de Brasília) anunciou a compra de 49% das ações ordinárias. Além disso, levaria 100% das preferenciais por R$ 2 bilhões.

Contudo, o negócio dependia de aprovação do Banco Central. Essa análise acabaria se tornando um divisor de águas. Enquanto isso, a situação financeira deteriorava rapidamente.

Segundo balanço divulgado em abril de 2025, o Master tinha passivos impressionantes. Eram R$ 7,6 bilhões apenas no primeiro semestre. Entretanto, até o final do ano, os compromissos alcançariam R$ 16 bilhões.

Venda de ativos: de R$ 1,5 bi a empresas do grupo

Diante do cenário crítico, Daniel Vorcaro começou a vender ativos pessoais. A estratégia visava levantar recursos emergenciais. Consequentemente, várias operações foram realizadas rapidamente.

O banqueiro vendeu participações em empresas ao BTG. Também negociou imóveis e direitos creditórios. Essas transações renderam R$ 1,5 bilhão em caixa.

Além disso, Vorcaro vendeu a seguradora Kvor a sócios minoritários. Em setembro, a J&F (holding da família Batista) acabou comprando a empresa. Portanto, a Kvor saiu definitivamente do grupo Master.

O banco também colocou o Will Bank à venda. Essa instituição digital fazia parte do conglomerado. O fundo árabe Mubadala demonstrou interesse inicialmente. Porém, o negócio não se concretizou.

Enquanto isso, o Master negociava nova linha de crédito. O mercado comentava sobre possíveis R$ 10 bilhões do FGC. Essa seria a tábua de salvação definitiva.

Empréstimo de R$ 4 bi foi rolado mas tudo mudou

O empréstimo inicial de R$ 4 bilhões venceu em outubro. O FGC decidiu rolar a dívida temporariamente. Assim, deu mais tempo ao Master para se organizar.

Contudo, quase simultaneamente, o Banco Central rejeitou a compra pelo BRB. A decisão veio acompanhada de documentos preocupantes. Esses papéis revelavam possíveis irregularidades.

A Polícia Federal abriu inquérito imediatamente. A investigação se baseou justamente nos documentos do BC. O foco era apurar fraudes na venda de carteiras de crédito.

A PF investiga suspeitas graves. Entre elas, fraude contra o sistema financeiro e falsidade documental. Ademais, há possíveis prejuízos a instituições públicas.

Cláusula de segurança entrou em ação automaticamente

Foi nesse momento que a cláusula contratual se ativou. Com a investigação da PF, o FGC suspendeu qualquer novo empréstimo. Ou seja, aqueles R$ 10 bilhões comentados no mercado nunca viriam.

Daniela Poli Vlavianos, advogada especialista em execuções, explica o mecanismo. Segundo ela, essa cláusula é amplamente usada em operações de risco elevado. Especialmente com instituições financeiras.

“Trata-se de uma cláusula de gestão de risco”, afirma a advogada. Ela permite ao credor suspender recursos quando surgem fatos relevantes. Portanto, protege quem está emprestando o dinheiro.

Esse tipo de regra reflete práticas consolidadas. Principalmente em operações de crédito sofisticadas. Consequentemente, situações emergenciais costumam incluir essas proteções.

Sem o novo socorro do FGC, a situação virou insustentável. O Master não tinha outras fontes de recursos disponíveis. Além disso, nenhum comprador apareceu rapidamente.

O Banco Central decretou a liquidação em 18 de novembro. Foi o fim oficial da instituição após meses de agonia. Portanto, milhares de clientes ficaram em situação incerta.

No mesmo dia, Daniel Vorcaro foi preso preventivamente. A PF o capturou no Aeroporto de Guarulhos. Ele tentava embarcar para deixar o país. O banqueiro acabou sendo solto em 29 de novembro. Contudo, passou a usar tornozeleira eletrônica. Assim, suas movimentações ficam monitoradas.

FGC e Master não comentam situação

Procurado pela reportagem, o FGC informou que não comenta sobre associados. Essa é uma política padrão da instituição. Portanto, detalhes contratuais permanecem oficialmente confidenciais.

O Banco Master também optou por não se pronunciar. Dessa forma, não há posicionamento oficial da instituição. Enquanto isso, a liquidação segue seu curso legal.

Os depositantes do Master contam com a proteção do FGC. O fundo garante até R$ 250 mil por CPF e instituição. Portanto, quem investiu dentro desse limite deve receber.

Contudo, valores acima de R$ 250 mil entram na liquidação judicial. Esses credores disputarão os ativos restantes do banco. Consequentemente, podem demorar anos para recuperar algo.