
A crise entre Estados Unidos e Venezuela vai muito além da diplomacia. Na prática, ela afeta diretamente a indústria do petróleo e, consequentemente, o bolso dos brasileiros.
Segundo Paulo Ricardo Bomfim, consultor político e estrategista, o problema tem raízes profundas. “A crise na Venezuela não é só política nem só econômica: é sobretudo uma crise de confiança e de funcionamento real da indústria que sustenta o país, que é o petróleo”, afirma.
Como as sanções afetam a indústria venezuelana
As sanções impostas pelos Estados Unidos não eliminaram as reservas de petróleo da Venezuela. Contudo, elas criaram barreiras quase intransponíveis para a operação da estatal PDVSA.
De acordo com Bomfim, as restrições bloquearam três pilares essenciais para o funcionamento do setor: acesso a recursos financeiros, tecnologia moderna e logística internacional.
“As sanções não fecharam a torneira de reservas a Venezuela ainda tem petróleo mas bloquearam o acesso a dinheiro, a tecnologia e a logística que permitem tirar esse petróleo do chão”, detalha.
Como resultado, a PDVSA passou a buscar caminhos alternativos. Muitas vezes, isso significa vender petróleo com grandes descontos, ocultar a origem do óleo e realizar embarques fora de contratos formais. Assim, a eficiência da cadeia produtiva se deteriora ainda mais.
O impacto na produção e na economia venezuelana
A falta de acesso legítimo a compradores e serviços gera, basicamente, dois efeitos devastadores. Primeiro, a produção real despenca. Segundo, a receita do país cai drasticamente.
Sem recursos adequados, toda a infraestrutura sofre. Refinarias e plataformas tornam-se obsoletas e, além disso, investimentos em saúde, educação e serviços básicos deixam de acontecer.
“Menos receita significa menos dinheiro para serviços básicos, menos manutenção de infraestrutura, menos emprego formal e mais pressão sobre a população que já enfrentava dificuldades enormes”, resume o especialista.
E o Brasil? Reflexos no preço dos combustíveis
Apesar da proximidade geográfica, o Brasil não sofre desabastecimento físico de combustíveis. Isso porque o país importa derivados de diversas fontes e mantém estoques adequados.
No entanto, choques políticos afetam o preço internacional do petróleo e o câmbio. Consequentemente, esses ajustes acabam chegando às bombas brasileiras.
Bomfim ressalta que há também movimentos em sentido oposto. “Nos últimos dias, notícias de que os EUA podem voltar a comprar petróleo venezuelano em grande volume chegaram a reduzir o preço do barril lá fora, justamente porque isso aumenta a oferta percebida no mercado global”, observa.
Novos parceiros comerciais para a Venezuela
Com as portas americanas fechadas, a Venezuela precisou, inevitavelmente, buscar outros compradores. Nesse contexto, China, Índia e Rússia passaram a ocupar esse vácuo comercial.
A China, historicamente grande compradora, oscila entre o petróleo venezuelano e o de outros países sancionados. Em geral, o mercado asiático adota uma postura pragmática: busca óleo compatível e barato, mesmo que, para isso, assuma riscos adicionais.
A Índia, por sua vez, também aproveita oportunidades quando o desconto compensa os desafios logísticos e legais. Já a Rússia, além do ganho econômico, se beneficia geopoliticamente. “Washington e Caracas em atrito reforça alianças fora da órbita ocidental”, pontua Bomfim.
As consequências humanas da crise
Por trás dos números da indústria petrolífera, entretanto, existe uma população sofrendo. Quando a principal fonte de receita do país colapsa, toda a sociedade sente o impacto.
Como resultado, observa-se aumento da pobreza, migração em massa e uma economia baseada em improvisos. “É um país inteiro tentando sobreviver com a maior de suas riquezas sem conseguir extrair dela o que realmente poderia gerar para seu povo”, lamenta o consultor.
Um problema regional
Para Bomfim, a situação ultrapassa as fronteiras venezuelanas. “Isso reverbera não só na Venezuela, mas em toda a dinâmica de energia e preços na região”, conclui.
Por fim, o especialista alerta que não se trata apenas de flutuações temporárias no preço do barril. Trata-se, na verdade, de uma crise estrutural, que afeta milhões de pessoas e o mercado energético de toda a América do Sul.