
Os EUA criaram 50 mil vagas de trabalho em dezembro, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (9) pelo Departamento do Trabalho. O resultado indica uma desaceleração mais intensa do mercado de trabalho, em meio à cautela das empresas diante das tarifas de importação. Ainda assim, a taxa de desemprego recuou para 4,4%, reforçando a expectativa de que o Federal Reserve (Fed) mantenha os juros inalterados neste mês.
payroll abaixo do esperado, mas mercado segue resiliente
Analistas avaliam que o payroll de dezembro, com criação de 50 mil vagas, ficou abaixo do consenso de mercado, que apontava para algo entre 60 mil e 70 mil postos, reforçando a percepção de desaceleração gradual do mercado de trabalho dos EUA. O dado também veio acompanhado de revisões para baixo nos números de outubro e novembro, com destaque para uma correção mais forte no emprego privado.
Segundo análise do ASA, a média móvel trimestral do emprego privado recuou de 52 mil para 29 mil vagas, sinalizando um ritmo mais fraco de geração de postos, ainda que próximo ao que os economistas consideram neutro, diante da redução estrutural da oferta de mão de obra nos Estados Unidos.
Desemprego menor e salários mais fortes equilibram o quadro
Apesar da surpresa negativa na criação de vagas, o relatório trouxe sinais de resiliência. A taxa de desemprego caiu para 4,4%, abaixo do esperado, retornando ao nível observado antes do shutdown, enquanto o dado de novembro foi revisado de 4,6% para 4,5%. Com isso, o indicador encerrou o ano abaixo do nível projetado pelo Fed.
Outro ponto de atenção foi o crescimento dos salários, que acelerou para 3,8% em 12 meses, acima do ritmo observado anteriormente. Para Andressa Durão, economista do ASA, esse conjunto de informações reforça a leitura de um mercado de trabalho que perde fôlego de forma ordenada, sem sinais claros de deterioração abrupta.
Na avaliação da economista, “a surpresa baixista do payroll e a trajetória do emprego privado sugerem um retorno do emprego para um território positivo em ritmo mais fraco, mas próximo do nível neutro atualmente”. Segundo ela, o quadro sustenta a expectativa de que a pausa nos cortes de juros pelo Federal Reserve deve se estender por alguns meses.
Políticas comerciais pesam sobre a dinâmica do emprego
A perda de fôlego do mercado de trabalho no último ano é atribuída, em grande parte, às políticas agressivas de comércio e imigração de Donald Trump.
A desaceleração, no entanto, começou ainda em 2024. O Bureau of Labor Statistics estimou que a economia criou cerca de 911 mil empregos a menos nos 12 meses até março de 2025 do que havia divulgado anteriormente. Pois, o órgão apresentará a revisão oficial desses números no próximo mês, junto com o relatório de janeiro.
Composição do emprego afasta urgência por cortes agressivos
Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, a leitura do relatório ganha mais clareza quando se observa a composição da geração de empregos.
Segundo Cruz, o avanço segue concentrado em setores tradicionais, como restaurantes e saúde, sem distorções relevantes ou movimentos atípicos. “É verdade que os números ainda estão um pouco confusos, especialmente após a ausência dos dados de outubro, mas o conjunto das informações continua apontando para um mercado de trabalho aquecido”, afirmou.
Essa dinâmica, na visão do estrategista, enfraquece a narrativa que ganhou força meses atrás de que o mercado de trabalho estaria se deteriorando rapidamente, exigindo cortes agressivos de juros. Ele cita, inclusive, declarações recentes de dirigentes do Fed defendendo reduções mais profundas como uma leitura que perde sustentação diante dos dados atuais.
Fed deve adotar postura cautelosa
Em dezembro, o Federal Reserve cortou sua taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa entre 3,50% e 3,75%. Ainda assim, dirigentes indicaram pausa nos cortes no curto prazo, à espera de sinais mais claros da economia.
O desempenho moderado do mercado de trabalho, com queda do desemprego, reforça a expectativa de que o Fed mantenha os juros estáveis nas próximas reuniões.