Riccardo De Luca/Anadolu via Getty Images
Riccardo De Luca/Anadolu via Getty Images

O mundo nunca teve tantos bilionários como agora. Pela primeira vez na história, o planeta ultrapassou a marca de 3 mil bilionários. Juntos, eles concentram US$ 18,3 trilhões em patrimônio.

Mais impressionante ainda é a velocidade desse crescimento. A fortuna do grupo mais rico aumentou 16,2% desde novembro de 2024, quando Donald Trump venceu as eleições presidenciais nos Estados Unidos. Portanto, o ritmo é três vezes maior que a média anual dos últimos cinco anos.

O salto de US$ 2,5 trilhões em apenas um ano teria impacto significativo. Consequentemente, esse valor seria suficiente para erradicar a pobreza extrema no planeta 26 vezes. Enquanto isso, uma em cada quatro pessoas enfrenta insegurança alimentar no mundo.

Os dados constam no relatório “Resistindo ao Domínio dos Ricos”, divulgado pela Oxfam. A organização global de combate à desigualdade publicou o estudo às vésperas do Fórum Econômico Mundial em Davos.

Políticas pró-ricos impulsionam fortunas

A administração Trump adotou uma agenda claramente favorável aos super-ricos. Portanto, reduziu impostos sobre grandes fortunas e afrouxou esforços tributários sobre corporações.

Além disso, o governo recuou no combate a monopólios. Consequentemente, incentivou a desregulamentação de diversos setores da economia americana.

Na prática, essas medidas criaram um ambiente privilegiado para os mais ricos. Assim, eles passaram a reter mais renda e pagar proporcionalmente menos impostos. Dessa forma, operam com menos regras e maior liberdade para acumular capital.

Embora os bilionários americanos tenham registrado os maiores ganhos, o efeito foi global. Portanto, bilionários de outras regiões também tiveram aumentos expressivos em suas fortunas.

Setores como tecnologia e inteligência artificial se destacaram. Consequentemente, impulsionaram ainda mais a concentração de riqueza no topo da pirâmide.

Concentração extrema no topo

Os números revelam uma concentração impressionante de riqueza. Os dez bilionários mais ricos do mundo detêm, juntos, cerca de US$ 2,4 trilhões.

Mais chocante ainda: os doze mais ricos acumulam mais riqueza que metade da população global. Portanto, superam o patrimônio de mais de quatro bilhões de pessoas.

Só o valor acumulado pelos bilionários em 2025 já seria transformador. Com US$ 2,6 trilhões, seria possível distribuir cerca de US$ 250 a cada pessoa no planeta. Além disso, o grupo ainda terminaria o ano US$ 500 bilhões mais rico.

Entre os destaques, Elon Musk entrou para a história. O bilionário se tornou a primeira pessoa no mundo a ultrapassar US$ 500 bilhões em patrimônio. Assim, consolida seu domínio através de empresas como Tesla e SpaceX.

Brasil lidera desigualdade na América Latina

O Brasil registra o maior número de bilionários da região. São 66 pessoas que, juntas, acumulam cerca de US$ 253 bilhões. Consequentemente, o país detém a maior fortuna concentrada da América Latina e Caribe.

O sistema tributário brasileiro historicamente penaliza os mais pobres. Portanto, a maior parte dos impostos recai sobre a renda do trabalho. Dessa forma, afeta principalmente famílias que dependem do emprego para sobreviver.

Enquanto isso, os mais ricos pagam proporcionalmente menos impostos. Herdeiros, investidores e donos de grandes fortunas se beneficiam de um sistema regressivo.

“A recente reforma do imposto de renda representa um avanço ao ampliar a isenção para rendas baixas”, reconhece o estudo da Oxfam. Entretanto, o país ainda precisa avançar na taxação de dividendos, grandes fortunas e heranças.

Poder político desproporcional

A concentração de riqueza se converte rapidamente em poder político. Portanto, bilionários têm 4 mil vezes mais chances de ocupar cargos políticos que cidadãos comuns.

Uma pesquisa global em 66 países revelou dados preocupantes. Quase metade dos entrevistados acredita que os ricos frequentemente compram eleições em seus países.

Na esfera internacional, a presença de super-ricos é marcante. Durante a COP28 da ONU, 34 bilionários participaram como delegados oficiais. Além disso, um quarto deles construiu fortunas em setores altamente poluentes.

Quatro bilionários tinham acesso à “Zona Azul” da conferência. Portanto, participaram diretamente das negociações dos principais acordos climáticos globais.

Controle da mídia e redes sociais

A concentração também se estende ao controle da informação. Bilionários controlam mais da metade das maiores empresas de mídia do mundo. Além disso, todas as principais redes sociais pertencem a super-ricos.

Os exemplos são numerosos e preocupantes. Jeff Bezos comprou o Washington Post. Elon Musk adquiriu o Twitter, rebatizando-o como X. Patrick Soon-Shiong é dono do Los Angeles Times.

Na França, Vincent Bolloré controla a emissora CNews. No Reino Unido, quatro famílias super-ricas dominam três quartos da circulação de jornais. Consequentemente, poucas pessoas controlam a narrativa pública global.

“A crescente lacuna entre os ricos e o resto da sociedade está criando um déficit político altamente perigoso”, afirmou Amitabh Behar, diretor-executivo da Oxfam Internacional.

Propostas para reduzir desigualdade

A Oxfam defende que governos coloquem a redução da desigualdade no centro de suas agendas. Portanto, propõe planos nacionais com metas claras e passíveis de acompanhamento.

As medidas incluem redistribuição de renda e fortalecimento de serviços públicos. Além disso, defendem ações para elevar salários e proteger direitos trabalhistas.

O relatório também aponta caminhos específicos. A tributação efetiva dos super-ricos é fundamental. Além disso, o combate a monopólios deve ser priorizado. Dessa forma, o alívio da dívida de países do Sul Global pode reduzir disparidades históricas.

“Reformas pontuais não são suficientes para enfrentar um problema estrutural”, alerta o estudo. Consequentemente, a organização propõe mudanças profundas no sistema econômico global.

A Oxfam também sugere limitar a influência política dos super-ricos. Portanto, defende regulação do lobby e fortalecimento de órgãos reguladores independentes. Além disso, propõe regras mais rígidas para evitar conflitos de interesse.

Para a entidade, conter a concentração de riqueza é essencial. Assim, torna-se possível proteger liberdades democráticas e reduzir a desigualdade global de forma estrutural.