
O Pix transformou profundamente a forma como os brasileiros realizam pagamentos, tornando-se um instrumento central da economia digital.
Ainda assim, mesmo com ampla adoção, o Pix segue enfrentando um desafio relevante: a fricção no momento da autorização, especialmente em ambientes digitais. É nesse contexto que o Pix por biometria surge como uma possível evolução.
A proposta do Pix por biometria está baseada na chamada jornada sem redirecionamento. Em vez de conduzir o usuário para o aplicativo do banco ou para fluxos adicionais de Open Finance a cada transação, o modelo permite que a autorização aconteça de forma direta, após um pré-cadastro, utilizando a biometria como elemento de validação.
A lógica se aproxima da experiência já conhecida do NFC. Porém, com a ambição de ir além das limitações desse modelo, que ainda não se consolidou de forma ampla em todos os ecossistemas de dispositivos.
Do ponto de vista da experiência, o ganho é claro. Uma transação Pix tradicional pode levar mais de um minuto para ser concluída, enquanto a autorização biométrica reduz esse tempo para poucos segundos.
Essa agilidade melhora a usabilidade, reduz o tempo de exposição do usuário durante o pagamento e tende a aumentar a adesão, especialmente em ambientes como o comércio eletrônico.
No entanto, a discussão não pode se limitar à eficiência. A biometria utilizada nesse modelo é, em grande parte, a biometria do próprio dispositivo do usuário. Em um país com altos índices de roubo de smartphones, isso representa um risco concreto. Aparelhos roubados, muitas vezes já desbloqueados, podem ter seus dados biométricos alterados, permitindo a realização de pagamentos e o acesso a informações sensíveis.
Esse risco acaba ampliado pelo avanço acelerado da inteligência artificial. Sistemas biométricos funcionam a partir de mapas lógicos de pontos e características físicas, e a evolução da IA tem ocorrido em ritmo mais rápido do que o aprimoramento dessas tecnologias.
Além disso, processos biométricos nunca operam com 100% de assertividade. Eles exigem um equilíbrio delicado entre segurança e usabilidade: limiares muito rígidos podem impedir o uso legítimo, enquanto critérios mais flexíveis abrem espaço para tentativas de exploração.
Por isso, a biometria deixa de ser apenas um facilitador e passa a funcionar como uma espécie de assinatura, que pode ser descoberta, testada e, em determinados contextos, explorada. A discussão, portanto, não é se o Pix por biometria é uma boa ideia, mas se o ecossistema está preparado para lidar com os riscos que acompanham essa evolução.
Dessa forma, a postura do Banco Central também entra nesse debate. Em ciclos anteriores, a inovação conduziu-se com maior abertura a testes e ajustes em operação. Mais recentemente, observa-se uma abordagem mais cautelosa, com desaceleração de iniciativas diante de pontos sensíveis de segurança.
Diante disso, o avanço do Pix por biometria dependerá não apenas de ganhos de experiência. Isso porque, será necessário uma capacidade do mercado e do regulador de endereçar riscos de forma consistente.
O Pix por biometria tem potencial para melhorar a experiência de pagamento no Brasil. Entretanto, seu sucesso estará diretamente ligado à forma como segurança, governança e regulação evoluirão junto com a tecnologia.