
O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 0,20% em janeiro, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (27). O resultado representa uma desaceleração em relação a dezembro, quando o índice avançou 0,25%, e ficou ligeiramente abaixo das expectativas do mercado.
Na avaliação do economista Maykon Douglas, o dado reforça a leitura de que o Banco Central do Brasil deve manter uma postura cautelosa na decisão de juros desta semana.
“A inflação segue no caminho correto diante da política monetária em curso. Ainda assim, o resultado de hoje reforça minha visão de que o BC não cortará os juros agora, mas apenas em março”, afirma.
Inflação em 12 meses sobe, com peso do efeito estatístico
No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 passou de 4,4% para 4,5%. O avanço, contudo, foi influenciado por um efeito estatístico de base. Em janeiro de 2025, a inflação havia sido artificialmente baixa devido ao bônus de Itaipu aplicado nas tarifas de energia elétrica.
Segundo Maykon Douglas, o movimento confirma um processo gradual de arrefecimento da inflação, embora ainda com pontos de atenção relevantes.
“A média dos núcleos de inflação subiu 4,3% na comparação anual, retornando ao intervalo da meta”, explica.
A leitura converge com a avaliação de Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD. Para ele, o dado é benigno na margem, mas ainda insuficiente para justificar uma mudança imediata de postura do Comitê de Política Monetária (Copom).
Segundo Spyer, a resiliência dos núcleos, especialmente em serviços e bens industrializados, exige cautela adicional da autoridade monetária.
Composição do índice traz sinais mistos
Na análise qualitativa, o IPCA-15 apresentou movimentos opostos entre os principais grupos. A inflação de alimentação no domicílio acelerou, comportamento típico do início do ano, enquanto os serviços desaceleraram, puxados principalmente pela deflação das passagens aéreas.
Apesar desse alívio pontual, Maykon Douglas chama atenção para um ponto sensível da dinâmica inflacionária.
“A inflação de serviços intensivos em trabalho segue acelerando. O índice passou de 7,6% para 8,0% na média anualizada dos últimos três meses, o maior nível desde outubro de 2022”, diz.
Segundo o economista, o movimento reflete um mercado de trabalho ainda apertado, que continua pressionando preços ligados à renda e ao emprego. Esse comportamento ajuda a conter o número cheio no curto prazo, mas não elimina as pressões estruturais sobre a inflação subjacente.
Diante desse cenário, o mercado mantém a expectativa de manutenção da Selic na reunião desta quarta-feira, aguardando sinais mais claros e consistentes de desaceleração dos núcleos inflacionários.