agro 5.0
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O agronegócio brasileiro sempre foi reconhecido pela sua capacidade de incorporar inovação. Ao longo das últimas décadas, vimos saltos expressivos de produtividade impulsionados por genética, mecanização, biotecnologia e agricultura de precisão.

Agora, entramos em uma nova fase: o agro 5.0. Mais do que uma evolução tecnológica, trata-se de uma mudança estrutural na forma como o produtor toma decisões, gere sua operação e constrói competitividade.

O que diferencia o agro 5.0 das fases anteriores não é apenas o avanço da automação ou da inteligência artificial, mas a maturidade digital do produtor rural. Historicamente, o campo sempre adotou tecnologia de forma muito eficiente, porém, quase sempre embarcada em máquinas, insumos ou sementes.

Nos últimos anos, essa relação mudou. O produtor passou a usar tecnologia de maneira independente, recorrendo a softwares, plataformas digitais e sistemas de gestão que hoje fazem parte da rotina da fazenda.

Essa familiaridade é o grande divisor de águas. Se nas fases anteriores a adoção vinha acompanhada da dúvida, “será que isso funciona?”, agora ela acontece em outra velocidade.

O uso de dados para buscar eficiência produtiva, financeira e operacional deixou de ser um experimento pontual e passou a integrar o dia a dia do negócio rural. Quando a tecnologia ganha escala, ela deixa de ser apenas inovação e se torna estratégica, para o produtor e para o país.

Nesse contexto, a inteligência artificial surge como um dos pilares centrais do agro 5.0. Sua principal contribuição não está em substituir o produtor ou o agrônomo, mas em acelerar e qualificar a tomada de decisão.

No agro, as decisões são cada vez mais complexas: envolvem clima, solo, histórico produtivo, logística, preços de insumos, volatilidade de mercado e riscos financeiros. Modelos de inteligência artificial conseguem processar múltiplas variáveis simultaneamente e transformar esse volume de informações em recomendações mais rápidas e precisas.

Vale destacar que esses modelos não surgiram do zero. Eles são alimentados por anos de dados coletados pelas primeiras fases da agricultura de precisão, mapas de produtividade, dados climáticos, sensores em máquinas, monitoramento de solo e imagens de satélite.

A inteligência artificial, nesse sentido, potencializa o valor de tudo o que já foi construído anteriormente, reduzindo o tempo entre a análise e a decisão no campo.

E é justamente aí que entra um ponto fundamental: a integração de dados. Mais do que uma vantagem competitiva isolada, a integração é o verdadeiro habilitador do agro 5.0. Sem dados históricos, organizados e em volume suficiente, não há inteligência artificial capaz de gerar valor real.

A coleta contínua de informações, seja por softwares de agricultura de precisão, equipamentos embarcados, institutos climáticos ou registros operacionais, é a base sobre a qual todo o modelo se sustenta.

Por isso, integrar dados não é apenas “ganhar vantagem”, mas criar as condições mínimas para competir em um ambiente cada vez mais orientado por eficiência. Sem dados, o agro 5.0 simplesmente não acontece.

Como toda transformação profunda, esse movimento também traz desafios. Um dos principais é garantir que as recomendações geradas por algoritmos façam sentido agronômico, operacional e econômico.

A inteligência artificial não elimina a necessidade de profissionais experientes, pelo contrário. Ela exige pessoas capazes de interpretar, validar e treinar esses modelos corretamente. O desafio não é conciliar homem e máquina, mas capacitar profissionais para trabalhar com essas ferramentas de forma crítica e estratégica.

A inteligência artificial não vai substituir pessoas. Mas profissionais que utilizam bem ela tendem, sim, a substituir aqueles que não a utilizam. Essa adaptação na forma de trabalhar talvez seja o maior desafio do agro 5.0.

Quando falamos de conectividade, é importante reconhecer o quanto o cenário evoluiu. Durante muito tempo, a falta de acesso à internet foi vista como um gargalo estrutural. Hoje, especialmente na agricultura empresarial, esse obstáculo está muito mais bem resolvido.

Redes privadas de 4G, somadas à popularização da internet via satélite, tornaram a conectividade mais acessível e barata. Ela deixou de ser um limitador central para se tornar um pressuposto do modelo.

Já os ganhos práticos do uso de inteligência de dados são claros. Processos mais eficientes reduzem riscos, desperdícios e aumentam a sustentabilidade das operações. Desde a aplicação precisa de defensivos em cada talhão, reduzindo insumos e impactos ambientais, até a otimização logística dentro da fazenda, com menor consumo de combustível.

Da mesma forma, o uso de dados para planejar compras e vendas ajuda a mitigar riscos ligados à volatilidade das commodities. Eficiência operacional, no fim do dia, é o caminho mais direto para rentabilidade e sustentabilidade do negócio.

Embora esse movimento ainda seja liderado por grandes produtores, é inevitável que ele alcance pequenos e médios.

À medida que as tecnologias se tornam mais acessíveis, com modelos de assinatura e menor necessidade de investimento inicial, a barreira de entrada diminui. A conectividade, por exemplo, já é uma realidade para propriedades de diferentes portes.

O maior desafio para o pequeno e médio produtor talvez não seja financeiro, mas de tempo e capacitação. Com equipes mais enxutas, separar alguém para aprender, testar e implementar novas ferramentas nem sempre é simples.

Ainda assim, a história do agro mostra que toda inovação relevante acaba se difundindo, especialmente quando gera ganhos claros de eficiência.

O maior risco, olhando para o futuro, não está apenas em não adotar tecnologia, mas em não buscar eficiência de forma consistente. A tecnologia é uma das ferramentas mais poderosas para isso, especialmente em escala.

Mas o ponto de partida é simples e vale para qualquer produtor: começar, ou continuar, a coletar dados. Não importa se de forma totalmente digital ou até mesmo em registros manuais. O histórico da propriedade é um ativo estratégico.

Analisar o passado, testar novos modelos e tomar decisões mais informadas é o que manterá o produtor competitivo nas próximas safras. O agro 5.0 não é sobre o futuro distante. Ele já está acontecendo e será protagonista quem souber transformar dados em decisões.

Ivan Moreno

Ivan Moreno, CEO da Orbia, é formado em Processamento de Dados pela Universidade Mackenzie e tem MBA em Marketing pela ESPM. Com ampla experiência no agronegócio e passagem por multinacionais do setor, lidera a estratégia e operação da Orbia. Em 2024, foi eleito uma das 100 personalidades mais influentes do agronegócio brasileiro na categoria Tecnologia, Pesquisa e Inovação pelo Grupo Mídia.

Ivan Moreno, CEO da Orbia, é formado em Processamento de Dados pela Universidade Mackenzie e tem MBA em Marketing pela ESPM. Com ampla experiência no agronegócio e passagem por multinacionais do setor, lidera a estratégia e operação da Orbia. Em 2024, foi eleito uma das 100 personalidades mais influentes do agronegócio brasileiro na categoria Tecnologia, Pesquisa e Inovação pelo Grupo Mídia.