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Finanças Comportamentais – Parte I

A maioria das pessoas confia exageradamente em suas próprias capacidades. O indivíduo que está na média – seja um estudante, engenheiro ou trader – acredita que está acima da média, o que é estatisticamente impossível.

O excesso de confiança tem várias fontes. Primeiro, existe o que chamamos de viés da autoatribuição, que faz com que a pessoa atribua a si mesma o crédito pelo resultado favorável de um evento quando na verdade ela não merece esse crédito.

O sucesso inicial alimenta o excesso de confiança. As pessoas atribuem ganhos no mercado de ações a uma habilidade pessoal para investir, ainda que esses resultados com frequência tenham ocorrido ao acaso.

Outra fonte de excesso de confiança parte da tendência a ver paralelos em entre acontecimentos que parecem semelhantes. Isso é chamado de viés da representatividade. Na verdade, esse viés decorre do processo de aprendizagem dos seres humanos. Quando vemos algo que nos parece familiar, formamos uma heurística representativa para nos ajudar a aprender. Mas as analogias que enxergamos com frequência não são válidas e nossas conclusões são mal orientadas. Os economistas financeiros têm alertado há anos contra a tendência a identificar padrões nos dados quando na verdade eles não existem.

Psicologicamente, os seres humanos não estão estruturados para aceitar todas as aleatoriedades existentes no mundo. É muito desconfortante constatar que os movimentos no mercado são em sua maioria aleatórios e não têm uma causa ou razão identificável. Os seres humanos têm uma profunda necessidade psicológica de saber por que determinada coisa ocorre. 

Existem evidências de que os “especialistas” em determinado assunto estão até mais sujeitos ao excesso de confiança do que os não especialistas. Os supostos especialistas foram capacitados para analisar o mundo de uma forma específica e, para “venderem” os seus conhecimentos, eles precisam encontrar evidências corroborativas, e não contraditórias.

Na crise da bolha da internet no ano 2000, os analistas não mudaram suas previsões de lucro para o setor de tecnologia, não obstante as notícias que indicavam que havia algo seriamente errado na visão deles sobre o setor como um todo. Depois de serem alimentados durante anos com uma perspectiva otimista por parte das corporações, os analistas não tinham ideia de como interpretar as notícias pessimistas e, por isso, a maioria as ignorou. 

A propensão que temos a desconsiderar as notícias ruins foi ainda mais pronunciada entre os analistas do setor de internet. Muitos estavam tão convencidos de que essas ações era a “onda do futuro”, que, não obstante a abundância de notícias desagradáveis, vários só subestimaram essas ações depois que elas já haviam caído 80 a 90%.

O confronto com notícias que não correspondem à nossa visão de mundo cria o que é chamado de dissonância cognitiva, que é o desconforto que sentimos quando nos deparamos com evidências que conflitam com nossa visão ou indicam que nossa capacidade ou nossos atos não são tão bons quanto imaginávamos. Todos nós exibimos uma tendência natural a minimizar esse desconforto e com isso fica mais difícil reconhecermos nosso excesso de confiança.

Marcos Schilling Machado

Analista CNPI

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