O Banco Central puxou o freio de mão mesmo?
Foto: gerada por IA

Se você esteve online nas últimas semanas e leu as manchetes de qualquer jornal, é possível que você tenha sentido um leve arrepio na espinha.

Foi Banco Central apertando o cerco com a REsolução Conjunta nº 16 sobre os BaaS (Banking as a Service), Senado declarando guerra às contas bolsão usadas em massa, supostamente, para lavagem de dinheiro endossando o poder da AML (Prevenção à Lavagem de Dinheiro), Lei nº 9.613/1998. 

E, como coroa das manchetes, vimos o DREX, o famoso Real Digital, sendo completamente desligado para ser reconstruído do zero.

Para um observador desatento do mercado financeiro, parece que o Banco Central realmente puxou o freio de mão. Poderíamos até dizer que o frenesi da inovação financeira do Brasil acabou sendo abruptamente interrompido às vésperas do ano novo, por um Bacen que acordou de mau humor.

Mas em rodas de conversas nos bastidores do mercado, a conversa que eu tenho tido é outra: nunca houve um momento tão seguro e estratégico para uma empresa se tornar uma fintech.

Não estamos testemunhando um retrocesso. Atingimos a “maioridade penal” do ecossistema de inovação do mercado financeiro brasileiro. Foi-se o tempo da adolescência, onde a inovação desenfreada permitia arranjos precários e zonas cinzentas, Estamos, finalmente, numa fase adulta e a regra é clara: se você movimenta dinheiro no Brasil, você deve ter responsabilidade, transparência e robustez e ponto final. 

O Bacen trouxe profissionalização para o mercado todo e vai ser assim que o bumbo vai tocar de 2026 para frente. Já são mais de 25 anos desde a primeira fintech brasileira, que hoje você conhece como BMP. O Bacen só entendeu que chegou a hora de arrumar a casa.

E por que isso é uma excelente notícia para empresários do varejo, indústria, do agro ou de qualquer outro segmento que planeja fintechzar?

O Fim do Aluguel de licença e mais transparência sobre as regras do jogo

A nova resolução dos BaaS ataca diretamente um distúrbio grave do mercado. Até ontem, a farra do “aluguel de licença” rolou solta. Empresas de tecnologia sem qualquer robustez regulatória ou musculatura profissional ligavam-se a instituições financeiras menores e vendiam serviços bancários como se fossem donas da cocada toda. Operando nas sombras.

O Banco Central só disse “Chega!”. Agora, a instituição financeira que dá o lastro precisa aparecer. O cliente final – e o seu cliente – precisa saber quem é que está guardando o dinheiro dele. A responsabilidade pelo compliance, prevenção a fraudes e lavagem de dinheiro e PLD/KYC não poderá mais ser terceirizada contratualmente a um parceiro que não atende (nem entende) a regulação.

Existem muitos BaaS que são instituições seríssimas, e muitos deles são parceiros Finscale. Mas, papo sério, existe muita coisa no mínimo suspeita no mercado. E, sinceramente, para sua empresa, isso é um livramento. Quantos projetos de fintechzação nasceram tortos porque o parceiro BaaS era, na verdade, um aventureiro tecnológico sem estrutura de controle?

Ao limpar o mercado desses palyers mais frágeis, o Bacen garante que, quando você for escolher um parceiro para construir seu banco ou sua fintech, sobrará apenas aqueles que sabem o que estão fazendo. Os que têm a tecnologia de ponta, mas são suportados por um back-end de governança de “bancão tradicional”. A régua subiu: e isso protege você.

Contas Bolsão e o Choque de Realidade do Compliance

A mira do Senado e do Bacen nas “contas bolsão” é outra medida sanitária urgente que todos nós sabíamos que chegaria hora menos hora. O escândalo de lavagem de dinheiro envolvendo o PCC infiltrado em fintechs em plena Faria Lima à luz do dia, o coração financeiro do Brasil, serviu de alerta. 

Mas entenda: o problema não é a tecnologia, é a opacidade do sistema ao enxergar de quem é o dinheiro dentro dessas contas. Ao exigir que cada centavo tenha CPF ou CNPJ identificado e rastreável, o regulador não está burocratizando, mas sim blindando o sistema contra players mal-intencionados.

Para uma empresa séria que quer “fintechzar”, o compliance (PLD/KYC) não é um custo; é seu ativo de maior valor. Quando você internaliza serviços financeiros, você não quer ser um porto seguro para fraudadores. Muito pelo contrário: você quer ser um facilitador para o seu cliente legítimo. Essas novas regras forçam o mercado a desenvolver tecnologias de identidade e monitoramento ainda mais sofisticadas. Mais sofisticadas do que já existem? Sim.

Quem ganha? O ecossistema legítimo, que deixa de ser contaminado por manchetes policiais.

A coragem para corrigir a rota antes da colisão iminente

Talvez a notícia mais mal interpretada seja o “desligamento” da plataforma Drex. Muitos gritaram “fracasso”. Eu, Letícia, chamo de vanguardismo responsável.

O Banco Central do Brasil é, reconhecidamente, o regulador mais inovador do mundo. O Pix é estudado em Harvard. O Open Finance brasileiro é maior e mais rápido que o britânico. Inclusive, o Open Finance é caso de uso para o brasileiro perder a síndrome do vira-lata: nós temos um dos sistemas financeiros com dados interligados entre instituições mais avançadas do globo, e países como Alemanha e Reino Unido estão desenvolvendo seus próprios “Open Finances” tomando o nosso como modelo.

Quando o Bacen diz “a tecnologia atual do Drex não garante a privacidade que o mercado precisa, vamos refazer”, ele está protegendo o segredo do negócio.

Imagine colocar os recebíveis da sua empresa em uma rede blockchain onde seus concorrentes poderiam, por uma falha de arquitetura, inferir suas taxas ou volumes? 

Isso mataria o B2B. Isso mataria a tokenização em massa do sistema financeiro brasileiro. Ao pausar para garantir a privacidade (“privacy by design”), conceito amplamente conhecido em cyber threat intel, o Bacen mostra que não está brincando de laboratório, Ele diz com autoridade que está construindo a infraestrutura do futuro da economia nacional.

Minha mensagem para você é: não espere o Drex. A infraestrutura que já funciona — Pix, Open Finance, BaaS regulado — já é poderosa o suficiente para revolucionar o seu negócio hoje. Se você souber usar de forma inteligente para manter parte do fluxo financeiro que corre pela sua operaçãodentro de casa.

O Darwinismo aplicado ao ecossistema financeiro do Brasil

Este movimento coordenado de regulação mais rígida tem vencedores e perdedores claros.

Os aventureiros perdem e grande. Os que apostaram na arbitragem regulatória (fazer banco sem regras de banco) e os que usavam a inovação como cortina de fumaça para a falta de controle e, em casos piores, para regulamentar fraudes, encerram suas atividades por aqui.

Quem ganha são as empresas sérias de economia real que querem causar impacto positivo no ecossistema financeiro do nosso país. Ganha você, que tem um negócio sólido, com fluxo de caixa real, e que quer usar a “fintechzação” para reduzir custos, fidelizar clientes e criar novas receitas.

O mercado ficou mais difícil para quem vende infraestrutura (os fornecedores de BaaS), o que é ótimo para quem compra (você). Agora, ao contratar um parceiro para montar sua operação financeira, você terá a segurança de que ele está sob a lupa de aumento de um dos reguladores mais competentes do do sistema financeiro mundial: o Bacen que o brasileiro chama de nosso.

O Brasil continua sendo o maior ecossistema de fintechs da América Latina, mas agora com um selo de qualidade que nenhum outro país possui. O “Monstro do Bacen” não está aqui para devorar sua inovação; ele está aqui para garantir que a casa que você vai construir não desabe na primeira chuva.

A era do amadorismo acabou. A era da estratégia financeira corporativa, segura e rentável, apenas começou. A pergunta agora não é “será que é seguro fintechzar?”, mas sim: “com o mercado limpo e as regras claras, o que você está esperando para retomar o controle do seu dinheiro?”.