Basta ter uma ideia?

Criar empresas do zero nunca foi um jogo de sorte

O cenário macroeconômico brasileiro impõe um teste de resistência aos novos negócios

Foto: Reprodução
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Durante anos, o ecossistema de startups foi movido a um combustível abundante: capital barato, narrativas inspiradoras e uma boa dose de tentativa e erro. Bastava ter uma ideia, montar um pitch bem embalado e encontrar um investidor disposto a financiar a visão. Muitos negócios surgiram assim. E, em alguns casos, viraram cases globais.

O cenário macroeconômico brasileiro impõe um teste de resistência aos novos negócios. Com juros altos, o capital de risco se torna mais seletivo e cada aporte precisa justificar o risco que o investidor está disposto a assumir. Nesse ambiente, criar uma empresa do zero deixou de ser um ato de inspiração para voltar a ser um ato de transpiração estratégica. É nesse ponto que o venture building 2.0 entra em cena.

Ao contrário do modelo tradicional de incubadoras e aceleradoras, que oferecem suporte pontual, o venture builder atua como co-fundador: cria, estrutura, financia e opera negócios desde o primeiro dia. Mas a nova geração de venture builders não aposta apenas em ideias. Aposta em processos replicáveis, métricas rigorosas e desenho de saída claro desde o início. A lógica é simples: reduzir variáveis não controláveis e aumentar a taxa de sucesso de cada empreendimento.

No venture building 1.0, a prioridade era velocidade. A meta era colocar o produto no ar, ganhar tração e, com sorte, captar uma nova rodada. No 2.0, a velocidade continua sendo importante, mas com outro objetivo: validar hipóteses críticas antes de consumir capital e reputação. Isso significa entender sobre unit economics desde o dia um, projetar margens sustentáveis e criar uma arquitetura de negócios que possa escalar sem depender de injeções contínuas de recursos.

Esse modelo também exige uma mudança cultural. Fundadores acostumados a decidir sozinhos precisam se adaptar a um ambiente onde cada decisão estratégica é compartilhada com sócios experientes em M&A, finanças, tecnologia e governança. Não há espaço para o improviso desordenado. Cada passo é pensado para alinhar o crescimento à tese de investimento, e, principalmente, para preparar a empresa para ser adquirida, fundir-se ou abrir capital.

Outro diferencial do venture building 2.0 é a capacidade de construir portfólios complementares. Em vez de negócios isolados competindo por atenção e recursos, cria-se um ecossistema onde as empresas se fortalecem mutuamente: compartilham tecnologia, base de clientes, talentos e inteligência de mercado. Essa abordagem não apenas reduz custos e acelera o aprendizado, como também aumenta exponencialmente o valor do conjunto perante investidores estratégicos.

A saída, muitas vezes negligenciada no empreendedorismo tradicional, passa a ser um elemento central. Desde o início, a empresa é estruturada para atrair compradores específicos, com governança profissionalizada, processos documentados e indicadores financeiros consistentes. Isso elimina um dos grandes gargalos do M&A: a necessidade de “arrumar a casa” no meio da negociação.

Num mercado onde a taxa de mortalidade de startups ainda é alta, o venture building 2.0 é uma resposta pragmática e sofisticada. Não se trata de matar a ousadia empreendedora, mas de transformá-la em ativo com potencial real de retorno. 

O próximo ciclo de crescimento do ecossistema não será liderado pelos negócios que surgirem do acaso. Será liderado por empresas que nascerem com DNA de governança, estratégia de saída e capacidade de escala embutidos desde o primeiro dia. E, nesse jogo, vence quem constrói a melhor máquina para transformar ideias em empresas que valem a pena.

*Renan Geordes é Fundador e CEO da Zavii Venture Builder