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Ao ver o termo meio seco no rótulo do vinho, é comum que algumas pessoas concluam que tal exemplar não é bom porque deve ser doce demais, sem nem chegar a provar. O receio é compreensível, pois no Brasil a nomenclatura abarca uma gama muito ampla de vinhos, desde tipos quase tão secos quanto um seco clássico até aqueles com dulçor mais intenso no paladar.

Mas, por que isso acontece? O fato é que um mesmo vinho pode ser seco em seu país de origem e, ao chegar ao Brasil, ganhar uma outra classificação, recebendo a classificação de meio seco ou suave/doce, devido às especificidades da legislação brasileira.

O assunto é mais simples do que parece, mas é preciso entender para que serve, afinal, esta legislação. 

O que diz a legislação

A informação de classificação de vinho está presente no rótulo e diz respeito à legislação, que varia de acordo com o país. Cada país produtor estabelece suas próprias regras para essa categorização, de acordo com legislações específicas. No Brasil, essa regulamentação está prevista no Decreto nº 8.198, de 20 de fevereiro de 2014, que complementa a Lei nº 7.678, de 8 de novembro de 1988, dispondo sobre a produção, circulação e comercialização do vinho e de seus derivados.

De acordo com a legislação brasileira, o vinho é considerado seco quando tem até 4 gramas de açúcar por litro. De 4,01 a 25 gramas por litro, é meio seco. Acima de 25 gramas por litro, suave ou doce. A escala regulamenta exclusivamente vinhos tranquilos, que são aqueles sem borbulhas. Frisantes, espumantes e fortificados são classificados de acordo com outros critérios.

Essa lei é aplicada a todo e qualquer vinho produzido ou comercializado no Brasil. Isso quer dizer que o vinho elaborado em outro país, quando chega ao Brasil, ganha uma nova rotulagem, para que se enquadre na legislação vigente. Para isso, o vinho é submetido a uma análise química sob supervisão do Ministério da Agricultura e Pecuária e Abastecimento (MAPA) e, de acordo com os níveis de açúcar identificados nessa análise, a bebida recebe a classificação atualizada. Portanto, pode acontecer que um vinho saia do seu país de origem classificado como seco e, ao chegar ao Brasil, seja reclassificado como meio seco, pois as legislações são diferentes. Você pode, por exemplo, consumir um vinho na Itália como seco e, no Brasil, encontrá-lo como meio seco. Nada foi adicionado, se trata apenas de legislações diferentes.

A título de curiosidade, na União Europeia, um vinho é considerado seco quando o teor de açúcar residual é de até 4 g/l, ou até 9 g/l, se a acidez total não for inferior em mais de 2 g/l ao teor de açúcar residual, levando em consideração, também, a acidez. Já no Brasil, a legislação leva em consideração apenas o açúcar residual, determinando 4 g/L de açúcar residual como seco. 

Percebe como há uma lacuna enorme no que a legislação brasileira quando “meio seco”? De 4,01 g/L até 25 g/L. É sair de um vinho com doçura imperceptível até um que você já começa a sentir o açúcar residual com mais persistência no paladar. E sim, é compreensível isso gerar certa confusão, principalmente fazendo uma leitura contextualizada onde, no Brasil, os vinhos de mesa (elaborados com uvas americanas, não uvas finas/vitis viníferas) são comumente mais doces, o que pode ter gerado certo impacto em quem busca por vinhos mais secos e se deparam com a informação meio seco no contrarrótulo. 

O fator tipicidade

Para além da legislação de cada país, também há um fator relevante nessa leitura: a tipicidade, ou seja, o que se é esperado de cada região. Regiões de climas mais quentes tendem a ter um maior amadurecimento das uvas, o que ocasiona maior concentração de açúcares naturais, nutrientes, aromas e sabores das uvas. A consequência disso são vinhos mais alcoólicos, concentrados, encorpados e com maior açúcar residual, como são os casos os vinhos da Puglia (Itália), principalmente os elaborados com as uvas Primitivo, Negroamaro e Susumaniello; os vinhos Zinfandel da Califórnia (EUA), muitos Shiraz australianos, e alguns exemplos de vinhos no sul de Portugal. 

Logo, se você gosta desse perfil de vinho tinto mais concentrado no paladar, com notas de frutas mais maduras, cheios e volumosos, você pode curtir os estilos de vinhos tintos californianos, os italianos da Puglia ou da Sicília e os tintos australianos. Não se assuste, caso veja a informação “meio seco” no contrarrótulo, pois os vinhos destas regiões tendem a ser mais concentrados e isso impacta, também, no açúcar residual, assim como na graduação alcoólica, pois na fermentação alcoólica, a levedura se alimenta dos açúcares das uvas e libera álcool e CO2, além de criar aromas e sabores. Ou seja, quanto mais açúcares naturais uma tem, maior a tendência de gerar vinhos bem alcoólicos, geralmente acima de 14% de álcool. 

Importância do tipo de produção

Não se pode deixar de lado a informação do estilo de produção adotado pelo produtor. Pode ser que haja uma escolha de parar a fermentação antes que a levedura se alimente dos açúcares naturais presentes no mosto, assim como pode haver um estilo específico de produção de vinho de uma região, ou de um produtor. 

Vamos por um exemplo: o Amarone della Valpolicella, é um clássico tinto italiano que tem o nome inspirado em seu toque amargo (amaro, em italiano), um vinho potente, intenso, com grande potencial de guarda, com coloração profunda, alto teor alcoólico, alta concentração de taninos, perfil aromático amplo com notas de frutas mais maduras e até desidratadas, especiarias e até notas de tabaco, couro e chocolate. 

O método de elaboração de um Amarone é o apassimento, uma técnica italiana de vinificação onde as uvas são parcialmente desidratadas antes da fermentação, resultando em vinhos mais concentrados em açúcar e aromas. Literalmente o vinho é feito com uvas passificadas, ou seja, que passaram por um processo de desidratação, o que as deixa mais concentradas em sabores, acidez e açúcares. 

Um Amarone pode ter até 9 g/L de açúcar residual, logo, quando chega no Brasil, torna-se um vinho classificado como meio seco. Neste caso, é um vinho intenso e encorpado, cujo açúcar residual pode chegar até 9 g/L, o que é necessário para manter o equilíbrio, o que não significa que seja mais doce no paladar. Na verdade, o Amarone tem em seu estilo um amargor que é sua assinatura, inclusive, é o que dá o seu nome.

Equilíbrio de características

Antes de qualquer coisa, o vinho precisa estar harmonioso e equilibrado. Ao avaliar o vinho, é importante entender que ele tem elementos estruturais: acidez, açúcar residual, álcool, corpo e taninos. E que um vinho é equilibrado quando todos esses elementos estão bem integrados e em equilíbrio. É claro que você pode não gostar do vinho por não ser um estilo que não o agrada, e está tudo certo, mas é importante entender que tem o gosto pessoal e a avaliação técnica do produto. Não é preciso gostar de tudo, todavia, é bacana entender que vários elementos contribuem para o equilíbrio do vinho, e que se ele está equilibrado, está correto, gostando ou não. 

Sensibilidade do paladar 

Cada pessoa sente o vinho de uma forma diferente, uns têm mais sensibilidade à doçura, outros aos taninos e acidez. O que para uma pessoa a compreensão da acidez seja no âmbito do “azedo”, para outros a leitura pode ser de uma agradável acidez vibrante e refrescante. O mesmo pode acontecer com o açúcar residual. E como saber? Somente degustando!

É de suma importância informar que quanto maior a acidez de um vinho, menor é a percepção da doçura. Por isso, a legislação da União Europeia também leva em consideração a acidez para a classificação dos seus vinhos. 

Outro fator que costuma mascarar o dulçor é o amargor, ou a forte presença de taninos, como é o caso do vinho citado acima, o Amarone. Se ele não tivesse um residual de açúcar maior, podendo chegar a 9 g/L, ele provavelmente seria muito difícil de ser consumido, ficaria desequilibrado. 

Outro fato curioso é pelo aroma tender a julgar o vinho como doce. Não é possível sentir doçura no nariz, apenas na boca nas papilas gustativas, todavia, nosso olfato tem memória, e muitas vezes associa o aroma a algo que seja doce, principalmente associado a frutas muito maduras ou notas florais. Essa pegadinha pode até fazer você, mesmo sem perceber, entender esses vinhos como mais doces do que realmente são, e quando que, muitas vezes, são extremamente secos no paladar. 

Até mesmo o vinho seco tem açúcar residual, mesmo que em pequena quantidade e, na maioria das vezes, de forma imperceptível ao paladar. Como o intervalo da classificação meio seco no Brasil é muito grande de (4,01 a 25 g/L),  isso faz com que esta categoria tenha uma enorme variedade de estilos, de vinhos muito secos àquelas cuja percepção de açúcar é maior. Todavia, essa variedade de estilos mostra o tamanho da riqueza das possibilidades de vinhos. 

No fim das contas, a classificação meio seco não é um carimbo de qualidade inferior ou superior, mas apenas um indicativo técnico de açúcar residual dentro de um intervalo amplo definido pela legislação brasileira. Dentro dessa faixa, cabem vinhos elegantes, complexos e equilibrados, produzidos em regiões renomadas e por métodos tradicionais. Alguns deles, inclusive, são verdadeiras joias para quem busca intensidade, estrutura e persistência no paladar.

Por isso, antes de descartar um rótulo ao se deparar com o termo, vale dar uma chance à taça. Degustar é a única forma de descobrir estilos, texturas e aromas que podem surpreender e encantar. No universo do vinho, rótulos são guias e quem deve ter a palavra final é o seu paladar.