Veja o resumo da noticia

  • Ouro e prata oscilaram de forma inesperada, impactados por fatores macroeconômicos, fluxo de mercado e dinâmicas de margem e liquidez.
  • Juros e dólar influenciam o custo de manter posições em metais, impactando o apelo do ouro em relação a ativos que pagam juros.
  • Ralis explosivos prévios criaram fragilidades, atraindo investidores sem teses robustas e concentrando posicionamentos.
  • Alavancagem amplifica correções: quedas rápidas geram pedidos de margem, forçando a redução de posições.
  • Investidores confundem proteção com estabilidade, comprando conforto psicológico em vez de diversificação real.
  • Volatilidade é inerente, e o horizonte de tempo e o tamanho da posição determinam se ela se torna um problema.
Ouro e prata
Imagem gerada por IA

A conversa começa aqui

No fim de janeiro, ouro e prata fizeram o que, em tese, não deveriam fazer: oscilaram como ativos “nervosos”, queda brutal. Depois de uma arrancada que levou o ouro a novas máximas e a prata a patamares raros, veio a reversão. Em 30 de janeiro, o ouro caiu mais de 11% e a prata tombou mais de 30% em um único pregão, numa correção que pegou muita gente de surpresa. 

A leitura simplista aparece rápido: “ouro é proteção, então por que despenca assim?”. A confusão é tratar “proteção” como sinônimo de “não oscila”. Proteção, no mundo real, tem a ver com comportamento relativo em certos cenários (inflação, risco político, estresse sistêmico), e não com um caminho suave de preços. Quando o investidor entra sem ter esse mapa mental, volatilidade vira susto. E susto vira decisão mal tomada, especialmente quando o objetivo era descorrelacionada com a carteira, não tático.

O que está acontecendo de fato

A queda abrupta normalmente não tem um único motor. Ela acontece quando três camadas se alinham: macro (juros e dólar), fluxo (posicionamento) e mecânica de mercado (margem e liquidez).

Macroeconômico: dólar e juros reais mudam a régua do “custo de carregar” metais

Ouro e prata não pagam cupom, dividendo ou aluguel. O “custo” de manter posição, então, é comparado ao que o mercado consegue em ativos que pagam juros. Quando o mercado passa a precificar juros mais altos por mais tempo, ou quando os juros reais(juros menos inflação esperada) sobem, o ouro costuma perder apelo no curto prazo. O mesmo vale para um dólar mais forte, porque metais são precificados em dólar e ficam “mais caros” para o comprador fora dos EUA.

Foi exatamente nesse tipo de ambiente que o mercado entrou. A indicação de Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve foi interpretada como sinal de política monetária potencialmente mais dura, o que mexeu com expectativas de juros e ajudou o dólar a se firmar. Some a isso dados de inflação mais fortes nos EUA e você tem um empurrão macro para uma realização forte em metais. 

O pano de fundo: um rali muito “cheio” tende a corrigir de forma feia

Antes da queda, houve rali explosivo. Em 29 de janeiro, a própria dinâmica já era de mercado “esticado”: o ouro bateu recorde intradiário e depois virou, com realização de lucros; a prata também marcou recorde na mesma janela. 

Esse detalhe importa porque movimentos positivos muito rápidos criam duas fragilidades ao mesmo tempo. Primeiro, aumentam a proporção de investidores que entraram “porque subiu”, não porque têm tese robusta. Segundo, concentram posicionamento. Quando um gatilho muda o humor, a saída vira porta estreita.

Aqui vale lembrar o contexto do rali: medo de desorganização geopolítica, tensões políticas, debate sobre enfraquecimento do dólar e busca por “reserva de valor” ganharam força desde 2025 e aceleraram no início de 2026, com entrada de investidores e narrativa de “porto seguro” dominando o noticiário. 

A mecânica que transforma correção em cascata: margem, stop e liquidez

A parte menos intuitiva é a microestrutura – algo mais técnico, porém fundamental, para entender a dinâmica. Em momentos de euforia, é comum haver alavancagem massivas diretas ou indireta (ETFs, derivativos, estruturas). Quando o preço cai rápido, a corretora pede mais margem, mais garantias para o investidor, e o investidor precisa aportar dinheiro ou reduzir posição. Se muita gente precisa reduzir ao mesmo tempo, a venda deixa de ser “opção” e vira “obrigação”. Aqui tenha em mente que não é o investidor comum que faz a diferença estamos falando de bilhões de dólares em estruturas institucionais globais.

Na prata, isso é mais intenso por três razões: o mercado é menor, o metal é mais volátil por natureza e tem um componente industrial relevante (logo, o preço também carrega leitura sobre ciclo e demanda). Na virada de janeiro, houve sinais claros de comportamento de manada e correção acelerada por mecânica de margem, com participação forte de varejo e redes sociais, além de ajustes de exigência de margem em bolsas. 

Nada disso elimina o componente macro. Só explica por que, em certos dias, o “porquê” não cabe numa variável. É o encontro de uma narrativa que vira, com um mercado lotado e com alavancagem suficiente para transformar saída em avalanche.

Nota de honestidade: é impossível decompor com precisão “quantos pontos percentuais” da queda vieram de cada fator sem acesso a dados proprietários de posicionamento e fluxo em tempo real. O que dá para fazer, com segurança, é mapear a cadeia de causalidade e reconhecer que o catalisador (mudança de expectativa para juros/dólar) encontrou um mercado tecnicamente frágil. 

O que isso muda na prática

O investidor não precisa operar ouro ou prata para tirar uma lição útil desse episódio. A lição é sobre como você entende risco.

Proteção não é estabilidade. Um ativo pode proteger contra certos cenários e ainda assim ter quedas relevantes no caminho. Se a sua expectativa era “ter algo que não me assusta”, você estava comprando conforto psicológico, não diversificação. E conforto psicológico é caro quando o mercado resolve testar.

Horizonte e tamanho mandam mais do que opinião. O que decide se volatilidade vira problema é a combinação de (i) tamanho da posição e (ii) prazo em que você pode esperar. Se você depende de liquidez no curto prazo, qualquer ativo volátil vira um risco de timing. Se você tem horizonte longo, volatilidade é custo de carregamento emocional, não necessariamente dano patrimonial.

Para o brasileiro, há uma camada extra: câmbio. Mesmo quem olha “apenas” para ouro está olhando para duas variáveis quando mede em reais: preço internacional e dólar. Isso amplifica a sensação de surpresa. Você pode estar certo sobre o metal e errado sobre o dólar na janela curta, ou o inverso. A consequência prática é que a discussão de risco precisa considerar fatores, não apenas “o ativo”.

Onde o investidor costuma errar

1) Confundir rótulo com comportamento.
“Reserva de valor” e “porto seguro” são rótulos históricos. Eles não são contrato de baixa volatilidade. Quando o rótulo vira promessa implícita, a queda parece “injusta”, e isso induz decisões emocionais.

2) Entrar depois do movimento, com narrativa pronta.
Ralis fortes criam explicações convincentes. Só que muitas explicações vêm depois do preço. No fim de janeiro, havia sinais de mania em prata, com aceleração e linguagem de “corrida” típica de euforia. Entrar nesse momento costuma ser menos sobre tese e mais sobre medo de ficar de fora.

3) Tratar volatilidade como informação moral.
O erro não é achar volatilidade desagradável. É interpretar volatilidade como “o mercado está me dizendo que eu errei”. Muitas vezes, o mercado está dizendo algo mais simples: havia posicionamento demais do mesmo lado, e a porta de saída ficou estreita.

Resumo com clareza, não certeza

Por que ouro e prata caíram de forma abrupta? Porque um rali muito carregado encontrou um gatilho macro que mudou expectativas de juros e dólar, e isso acionou realização, margem e venda forçada, especialmente na prata. 

E por que isso assusta investidores não preparados? Porque muita gente compra “proteção” esperando suavidade. Quando a realidade entrega oscilação, o investidor descobre que não tinha plano para o caminho, apenas para o destino.

Se esse episódio serviu para alguma coisa, foi para lembrar que risco não é um número em uma planilha. Risco é o que acontece com você quando o preço anda contra a sua expectativa e você precisa decidir sob pressão. Quem melhora esse processo não prevê o próximo movimento. Apenas constrói uma forma mais estável de tomar decisão quando o mercado resolve testar convicções.

Daniel Abrahão é assessor de investimentos e escreve semanalmente sobre finanças, risco e tomada de decisão.