O crédito consignado é, há muitos anos, uma das modalidades de empréstimo mais utilizadas no Brasil

O crédito consignado é, há muitos anos, uma das modalidades de empréstimo mais utilizadas no Brasil. Ele nasceu como uma alternativa mais segura e com juros mais baixos, um contraponto ao cartão de crédito ou ao cheque especial, que seguem entre as linhas mais caras do mercado.

Segundo o Banco Central, enquanto o rotativo do cartão pode superar 15% ao mês, o consignado para trabalhadores do setor privado gira em torno de 3,79% ao mês, uma diferença que mostra claramente o potencial dessa modalidade no planejamento financeiro de quem precisa reorganizar as contas.

Mesmo assim, o consignado nunca deixou de ser um tema delicado. E não é por causa do produto em si, mas da história que se construiu ao redor dele. Boa parte da sensibilidade nasce da forma como essa modalidade foi oferecida ao longo dos anos. O consumidor brasileiro, especialmente o idoso, tornou-se alvo de um assédio comercial que não respeita limites.

Ligações insistentes, ofertas repetitivas e, em muitos casos, contratações não autorizadas criaram uma atmosfera de desconfiança. A percepção pública do consignado foi sendo distorcida por práticas agressivas de venda, que acabaram ultrapassando a fronteira do incômodo e entrando no campo do abuso.

A vulnerabilidade dos idosos é, provavelmente, o capítulo mais sensível dessa história. Em 2024, o Brasil registrou mais de 72 mil crimes financeiros contra pessoas acima de 60 anos, e uma parcela significativa envolve empréstimos consignados, descontos indevidos ou fraudes relacionadas a esse tipo de crédito.

Esse dado, divulgado pela TV Senado em um programa dedicado à proteção do idoso, reflete o tamanho do problema e ajuda a entender por que o assunto ainda desperta preocupação.

A desinformação também pesa muito na sensibilidade do tema. Muitos consumidores contratam consignado sem compreender completamente o CET (Custo Efetivo Total), a margem consignável ou o impacto de comprometer parte da renda mensal. Pesquisa da Febraban aponta que mais da metade dos brasileiros não consegue explicar o funcionamento das principais modalidades de crédito que utiliza.

Em um país onde, segundo a Confederação Nacional do Comércio, cerca de 80% das famílias estão endividadas, é natural que o consignado seja visto tanto como solução quanto como risco.

O problema é quando ele passa a ser usado não como instrumento de reorganização, mas como renda complementar, algo que cria um ciclo de dependência difícil de romper.

E, para completar, vivemos um momento em que golpes e fraudes se sofisticam com rapidez. A Serasa Experian registrou mais de um milhão de tentativas de fraude evitadas em um único mês de 2025, mostrando que o ambiente digital, apesar de avançado, ainda exige muita cautela.

Mesmo com seus benefícios, e eles são muitos, o consignado carrega uma memória de insegurança, ruídos e experiências negativas, especialmente entre públicos vulneráveis. É por isso que falar sobre essa modalidade ainda é tão sensível.

Não basta dizer que o consignado é uma opção mais barata: é preciso olhar para o contexto humano, para as histórias reais de quem já foi enganado, pressionado ou confundido por contratos mal explicados.

Se quisermos reposicionar essa modalidade como aquilo que ela realmente pode ser, uma ferramenta importante de organização financeira, é fundamental reconstruir a relação com o consumidor a partir de três pilares: informação clara, respeito ao usuário e processos realmente seguros.

O consignado não precisa ser um tabu. Com transparência e responsabilidade, ele pode voltar a ser visto como uma solução, não como um risco mascarado.

*Kaike Ribeiro, CEO da Finanto, fintech que democratiza o acesso ao crédito por meio da tecnologia e inovação financeira