Veja o resumo da noticia

  • O agronegócio brasileiro desenvolveu um sistema integrado de proteção contra as incertezas climáticas, combinando monitoramento, planejamento e seguros.
  • O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) é uma ferramenta central, que avalia estatisticamente os riscos e define janelas de plantio.
  • As recomendações do Zarc são acessíveis aos produtores através de portarias, painéis online e aplicativos, com iniciativas para aprimoramento.
  • A concessão de crédito rural está condicionada às recomendações do Zarc, incentivando sistemas produtivos resilientes e agricultura de precisão.
  • Eventos hídricos, como excesso ou falta de chuva, representam a maior parte dos sinistros no seguro agrícola, impactando diversas regiões.
  • Regiões como o Nordeste, Mato Grosso e Rio Grande do Sul apresentam vulnerabilidades específicas devido a fatores climáticos e monoculturas.
  • A recuperação de áreas degradadas melhora o risco para seguradoras, com seguros adaptados à realidade produtiva inicial e modelos paramétricos.
Banco de imagens/pixabay
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Cultivar alimentos no Brasil sempre exigiu convivência com a incerteza climática. No entanto, os eventos extremos se intensificaram nos últimos anos. Secas prolongadas, ondas de calor e chuvas concentradas exigem decisões rápidas dos produtores.

Por isso, o agronegócio brasileiro criou um sistema integrado de proteção. Esse sistema combina monitoramento climático, planejamento estatístico, crédito e seguro agrícola. Assim, os riscos estruturais diminuem consideravelmente.

Zarc: a ferramenta que orienta o plantio no agro

O Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático) está no centro desse sistema. Portanto, o Ministério da Agricultura usa essa ferramenta oficial para prever riscos no calendário agrícola.

A ferramenta analisa longas séries históricas de dados climáticos. Além disso, considera o ciclo das culturas e os tipos de solo. Consequentemente, estima a probabilidade de perdas por adversidades como seca e geada.

Importante destacar: o Zarc não é uma previsão do tempo. Na verdade, trata-se de uma avaliação estatística de risco. Por exemplo, define janelas de plantio com menor probabilidade de perda em cada município.

Como a informação chega ao produtor do agronegócio

Atualmente, as recomendações do Zarc chegam aos produtores por diferentes canais. As portarias anuais são publicadas no Diário Oficial da União. Além disso, existem o Painel de Indicação de Riscos e o aplicativo Plantio Certo.

Essas ferramentas identificam períodos de plantio com menor risco climático. Dessa forma, o produtor sabe se o plantio está dentro da janela recomendada. O governo reconhece, porém, que há espaço para melhorias.

Por isso, uma das principais iniciativas é o Zarc em Níveis de Manejo. Essa ferramenta refina a análise de risco conforme as práticas adotadas pelo produtor.

Crédito e seguro vinculados ao risco climático

O risco climático deixou de ser apenas conjuntural. Hoje, tornou-se elemento estruturante da política agrícola. Por exemplo, a concessão de crédito rural depende do cumprimento das recomendações do Zarc.

Além disso, sistemas produtivos que aumentam a resiliência recebem financiamento específico. Programas como Renovagro, Inovagro e Pronamp financiam investimentos em manejo do solo. Portanto, a agricultura de precisão e o plantio direto ganham incentivos.

No campo do seguro, o PSR discute novos modelos. Assim, incentiva o seguro paramétrico e reduz a discricionariedade na liberação de recursos. Desde janeiro de 2026, o programa exige critérios socioambientais para acesso à subvenção.

Água: o principal vilão das safras

No mercado segurador, o risco climático concentra-se principalmente em eventos hídricos. Segundo Glaucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, dados revelam um padrão claro.

Excesso ou falta de chuva respondem por mais de 70% dos sinistros no seguro agrícola. “Esses dois eventos pressionam mais o sistema”, explica Toyama. Em outros ramos, aparecem também granizo e vendavais. No entanto, o risco hídrico permanece como principal fator de perda.

Regiões mais vulneráveis do Brasil

Estudos da Embrapa e do Ministério da Agricultura identificam vulnerabilidades regionais importantes. O Nordeste aparece como região mais vulnerável, especialmente para o milho.

Mato Grosso e Mato Grosso do Sul enfrentam exposição pela concentração em soja. Enquanto isso, o Rio Grande do Sul sofre com extremos hídricos. O Sudeste, por outro lado, enfrenta veranicos e temperaturas elevadas.

O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas faz projeções preocupantes. Em regiões com monoculturas, as perdas econômicas podem superar 5% do PIB regional.

Essas transformações climáticas provocam deslocamento de culturas. Café, algodão e milho safrinha podem migrar para o sul. Além disso, buscam regiões de maior altitude. Trigo e aveia, por outro lado, tendem a perder espaço.

Na avaliação das seguradoras, áreas degradadas exigem atenção especial. No entanto, processos estruturados de recuperação melhoram significativamente o risco.

“Uma área degradada bem manejada apresenta condições agronômicas mais estáveis”, explica Toyama. Consequentemente, isso melhora o risco para a seguradora. O cuidado concentra-se no período inicial, quando o potencial produtivo ainda não atingiu a média regional.

Seguro adaptado à realidade produtiva

No seguro agrícola, essa transição acontece através do gatilho de indenização. Portanto, áreas recém-recuperadas têm produtividade esperada ajustada para baixo.

Por exemplo, se a média regional da soja é 50 sacas por hectare, áreas consolidadas têm gatilho abaixo de 35 sacas. Já áreas recuperadas podem ter produtividade esperada de 40 sacas. Assim, o gatilho fica em torno de 28 sacas.

“A lógica é adequar o seguro à realidade produtiva inicial”, afirma Toyama. Dessa forma, não desestimula a recuperação do solo. Além disso, protege a seguradora de riscos incompatíveis.

O mercado também avalia seguros paramétricos, especialmente em regiões com risco hídrico. Nesses casos, a indenização depende de índices climáticos. Portanto, independe da produtividade final da lavoura.

Na prática, o risco climático não pode ser eliminado da agricultura brasileira. Entretanto, o setor aprendeu a conviver com ele. Usa estatística, tecnologia, crédito e seguro para reduzir perdas.e