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O Brasil encerrou 2025 com um dado que chamou atenção de analistas e investidores: a taxa de desemprego recuou para 5,4%, o menor nível da série histórica, segundo a PNAD Contínua do IBGE. O resultado reforça a narrativa de um mercado de trabalho aquecido e, à primeira vista, saudável.

Ainda assim, por trás da boa notícia, cresce um questionamento relevante: os indicadores tradicionais conseguem refletir a realidade vivida pelos trabalhadores em um mercado cada vez mais fragmentado? Para especialistas, o avanço do emprego existe, mas a forma como ele se dá exige uma leitura mais cuidadosa.

O que dizem os dados oficiais da PNAD

Os números mostram melhora consistente. A taxa de participação permaneceu em 58,5%, enquanto a população ocupada avançou 0,1% na margem. Além disso, a renda apresentou crescimento relevante. O rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.613, com alta tanto mensal quanto anual.

Segundo Leonardo Costa, economista do ASA, o conjunto dos dados aponta para um mercado de trabalho ainda robusto. “Temos desemprego em mínima histórica recente, geração contínua de postos e crescimento real da renda”, afirma.

Ele destaca que os ganhos foram disseminados. “O aumento da renda aparece em setores como serviços de maior qualificação, atividades financeiras, agropecuária e setor público”, diz. Esse movimento impulsionou a massa de rendimentos para cerca de R$ 367,6 bilhões, alta superior a 6% em relação ao ano anterior.

Outro ponto positivo foi a redução da ociosidade. “A taxa de subutilização caiu para 13,4%, bem abaixo do observado um ano antes, indicando menor contingente de trabalhadores subutilizados”, acrescenta Costa.

Impacto direto na economia: consumo, crescimento e política monetária

O desempenho do mercado de trabalho tem papel central na dinâmica da economia brasileira. A combinação entre mais pessoas ocupadas e crescimento real da renda sustenta o consumo das famílias, principal motor do PIB.

Segundo Leonardo Costa, a expansão da massa de rendimentos “reforça o suporte do mercado de trabalho à atividade econômica”, ajudando a explicar a resiliência do consumo mesmo em um ambiente de juros elevados. Ao mesmo tempo, esse cenário mantém o mercado aquecido, o que influencia expectativas de inflação e decisões de política monetária.

É justamente por esse peso macroeconômico que a leitura correta dos indicadores se torna crucial. Se os dados não capturam a qualidade do emprego, há risco de diagnósticos incompletos sobre a real capacidade de crescimento do País.

Estar ocupado não é o mesmo que ter segurança

A PNAD considera ocupada qualquer pessoa que tenha trabalhado ao menos uma hora na semana de referência. Isso inclui trabalhadores com jornadas reduzidas, renda irregular ou múltiplos vínculos. Na prática, estar empregado não significa necessariamente ter estabilidade, previsibilidade financeira ou proteção social.

Para Alessandra Ribeiro, sócia e diretora da Tendências Consultoria, esse é um dos principais limites da leitura tradicional. “A taxa de desemprego ajuda a entender parte do cenário, mas não captura a realidade total do mercado de trabalho”, afirma. “Ela não mostra a qualidade das ocupações, o nível de informalidade ou a precarização dos vínculos.”

Essa percepção também aparece no cotidiano dos trabalhadores. Para Júlia Bueno, criadora de conteúdo das redês sociais conhecida pelo perfil Junarotina, a sensação de insegurança persiste mesmo entre quem está formalmente empregado. “A CLT garante direitos importantes, como férias, 13º salário e FGTS, mas quando falamos de segurança no sentido de permanência no emprego, essa percepção mudou”, diz.

Segundo ela, estar contratado deixou de ser sinônimo de estabilidade a longo prazo, o que leva muitos profissionais a buscarem alternativas para reduzir riscos.

A fragmentação do mercado de trabalho

A expansão de vínculos não tradicionais, como trabalho por aplicativo, contratos intermitentes, prestação de serviços via PJ e atividades informais, vem redesenhando o mercado de trabalho brasileiro. Esse movimento amplia a flexibilidade, mas também transfere riscos para o trabalhador.

Na prática, cresce o acúmulo de funções e fontes de renda. “Vejo cada vez mais pessoas, inclusive em regime CLT, acumulando freelas ou rendas extras”, afirma Júlia Bueno.

Para ela, isso reflete tanto uma estratégia de sobrevivência quanto de crescimento profissional. “Depender apenas de um plano A pode ser arriscado. Ter um plano B reduz a dependência de uma única fonte de renda.”

Júlia destaca que, embora a flexibilização possa representar autonomia para alguns, em muitos casos ela surge como resposta à falta de opções mais estáveis. “Quando não há escolha real, o risco de precarização é alto”, afirma.

Quem escolhe, e quem é empurrado

Esta fragmentação do mercado de trabalho não afeta todos da mesma forma. Profissionais com maior qualificação, reserva financeira e poder de negociação tendem a ter mais liberdade para escolher entre CLT e PJ. Já trabalhadores de baixa renda costumam ser empurrados para vínculos mais frágeis.

“Quem acaba nesses modelos menos seguros são, em geral, pessoas que precisam garantir renda imediata, sem margem para recusar propostas”, diz Júlia. Jovens enfrentam maior dificuldade de entrada em empregos estáveis. Mulheres lidam com mais informalidade e sobrecarga, especialmente ao conciliar trabalho e cuidados. Trabalhadores de baixa renda são os mais expostos à instabilidade.

O limite dos indicadores e o risco de leitura incompleta

Para Alessandra Ribeiro, os indicadores atuais continuam relevantes, mas precisam ser analisados com cautela. “Eles têm mérito e cumprem bem o papel de mostrar a dinâmica geral do mercado”, afirma. “Mas, diante da fragmentação crescente, precisam ser complementados.”

Segundo a economista, confiar apenas na taxa de desemprego pode gerar distorções na formulação de políticas públicas, no planejamento previdenciário e na avaliação da sustentabilidade do crescimento econômico. “O risco é criar uma falsa sensação de conforto macroeconômico, enquanto a instabilidade avança na base do mercado de trabalho”, alerta.

O desemprego caiu, porém o trabalho mudou

Os dados mostram um mercado de trabalho aquecido, com desemprego baixo e renda em alta. As falas dos especialistas, porém, revelam uma realidade mais complexa. O emprego cresceu, mas se fragmentou. O desafio agora é entender se o Brasil está preparado para medir, interpretar e enfrentar essa transformação, antes que bons números escondam um mercado de trabalho cada vez mais instável e desigual.