Veja o resumo da noticia
- Inflação de janeiro em 0,33%, com acumulado em 12 meses de 4,44%, mantendo cautela do Banco Central e exigindo atenção contínua.
- Reajuste do ICMS sobre a gasolina pressionou a inflação, enquanto a energia elétrica, com a bandeira verde, aliviou o índice.
- Núcleos da inflação vieram acima do esperado, com serviços subjacentes ainda pressionados, impactando a curva de juros futuros.
- Corte no preço da gasolina pela Petrobras em fevereiro pode impactar positivamente o IPCA no curto prazo, com alívio adicional.
- IPCA não impede corte na Selic, mas exige cautela, com mercado esperando corte de 0,25 ponto base em março, dependente de dados.
- Mercado atento à queda da gasolina e desaceleração de serviços para o BC ganhar espaço, com prudência na política monetária.

A inflação oficial do país repetiu o ritmo do mês anterior. O IPCA subiu 0,33% em janeiro, praticamente em linha com o consenso, e o acumulado em 12 meses avançou de 4,26% para 4,44%. O número foi divulgado nesta terça-feira (10), e mantém a inflação dentro do intervalo de tolerância, mas ainda em um patamar que exige cautela do Banco Central.
Na leitura de Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, o dado confirma “uma inflação mais comportada na margem”, com algum alívio em serviços e ajuda da bandeira tarifária verde. Ao mesmo tempo, ele ressalta que a qualidade do índice não veio tão “leve” quanto parte do mercado gostaria, porque núcleos e serviços subjacentes ficaram mais pressionados do que o previsto, um ponto que ajuda a explicar a reação de juros futuros mais abertos.
Gasolina e energia elétrica explicam o “empate” do mês
O desenho do IPCA de janeiro teve uma disputa clara entre forças de alta e de baixa. De um lado, Transportes (+0,6%) liderou as pressões, com a gasolina gerando o maior impacto individual. O motivo foi o reajuste do ICMS sobre o combustível.
Do outro lado, a energia elétrica pesou para baixo e ajudou a evitar um número maior. A queda do item, associada à vigência da bandeira verde, respondeu pelo principal alívio do índice no mês.
Essa leitura também aparece no comentário de Leonardo Costa, economista do ASA, que descreve um IPCA com “surpresa em combustíveis e cuidados pessoais”, parcialmente compensada por um desempenho melhor de alguns componentes, como alimentos em menor ritmo.
Núcleos e serviços: o trecho mais sensível do relatório
Se o headline (o número cheio) veio “ok”, a discussão real está no miolo. Maykon Douglas, economista, observa que a média dos núcleos veio acima do que o mercado esperava, embora tenha desacelerado. Além disso, a inflação de serviços subjacentes perdeu força: na métrica anualizada e ajustada sazonalmente, ela caiu de 5,0% para 4,5%.
Ainda assim, Maykon faz o alerta importante: serviços intensivos em trabalho até desaceleraram, o que é positivo, mas quando anualizados, seguem em patamar alto. Ou seja, o “calcanhar de Aquiles” do Copom melhora, porém não vira “zona de conforto” de uma vez.
A Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, também reforça essa leitura de equilíbrio: serviços subjacentes vieram em linha, com intensivos em mão de obra um pouco melhores, mas os preços industriais surpreenderam para cima, principalmente em bens duráveis. Na prática, isso mantém a inflação subjacente viva e impede comemoração antecipada.
Fevereiro pode trazer um respiro via gasolina
O próximo mês já entra com um fator relevante no radar: o corte de 5,2% no preço da gasolina, anunciado pela Petrobras no fim de janeiro. Para Maykon Douglas, esse movimento deve impactar o IPCA de fevereiro e pode ajudar o índice a seguir numa dinâmica mais benigna no curto prazo.
Na mesma direção, Leonardo avalia que a inflação de curto prazo tende a ser mais favorável, com alimentos menos pressionados, a queda da gasolina e uma desaceleração gradual de serviços.
Selic: o dado “não trava” cortes, mas muda o tom
A grande pergunta do mercado é o tamanho do primeiro passo. E aqui as falas convergem: o IPCA não impede o início de um ciclo de cortes, porém reduz o conforto para decisões mais agressivas.
Segundo Pablo Spyer, o resultado sustenta um cenário-base de corte de 0,25 ponto em março, enquanto diminui a probabilidade de um corte de 0,50 se os núcleos continuarem pressionados. Para ele, o BC tende a reforçar uma postura gradual e dependente dos dados.
Maykon Douglas vai na mesma linha: ele diz que a inflação já caminhou o suficiente para permitir cortes, mas mantém a expectativa de 25 bps em março, sobretudo por causa do cenário de mercado de trabalho ao longo do ano.
Já Mariana Rodrigues afirma que o dado não altera sua avaliação para inflação e política monetária. Ela mantém projeção de IPCA em 4,1% em 2026 e Selic em 13%. Por fim, Leonardo Costa (ASA) trabalha com IPCA de 4,0% em 2026, destacando que o processo de desinflação pode seguir, ainda que com ruídos.
O que observar a partir daqui
Daqui em diante, o mercado vai olhar menos para o “0,33%” e mais para o que ele sinaliza. Se a queda da gasolina realmente aparecer no índice e os serviços continuarem desacelerando, o BC ganha espaço. Se núcleos voltarem a surpreender e preços administrados seguirem pressionando, a curva de juros tende a continuar pedindo prudência.
No fim, janeiro entregou uma mensagem bem brasileira: não foi ruim, mas também não foi “tranquilo”. E, para a Selic, isso costuma significar um ciclo de cortes possível, só que bem medido.