Arredondar o troco é modo descomplicado de apoiar ONGs e já arrecadou R$ 8 milhões

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Foi juntando centavo a centavo, durante dez anos, que o Movimento Arredondar arrecadou e distribuiu R$ 8 milhões em doações para ONGs de todo o país. Movimento porque se trata disso: o varejista abre o canal de doação, o funcionário no caixa sugere o arredondamento até o próximo número cheio, o cliente consente e a ONG transforma o recurso em benefício na ponta.
O círculo virtuoso, que nasceu em 2011 com a proposta de aproximar a doação da rotina de pessoas e empresas, conta hoje com boa vontade dos brasileiros.
É que 96% querem ser mais solidários, segundo pesquisa Datafolha, que ouviu por telefone mais de 1.500 pessoas de todas as regiões do país em setembro de 2020.
Apesar da intenção, apenas 27% efetivamente se envolveram à época em ações solidárias, destacando muitas vezes não saber como colocar essa solidariedade em prática.
?O convite é fundamental. Depois, o valor chama atenção?, afirma Ari Weinfeld, economista e um dos fundadores da Arredondar, sobre as microdoações estimuladas na boca do caixa. ?E saber que pode doar na hora, sem fornecer dados, de um jeito descomplicado e fácil tem grande adesão.?
Varejistas como Pão de Açúcar e Minuto, Burger King Brasil e Petz direcionam os centavos doados para ONGs certificadas pelo Arredondar, que cobra 20% do total para viabilizar todas as operações.
Em 2020, comércios e restaurantes fecharam as portas nas piores fases da pandemia, mas a urgência pela solidariedade sobressaiu na crise.
?Nunca ouvimos falar tanto em doação, seja na televisão, nas redes sociais, nas conversas pessoais?, afirma Beatriz Bouskela, diretora-executiva do Movimento Arredondar.
Mas nem sempre foi assim. Se há dez anos a peleja era influenciar o cliente a doar enquanto embalava compras, também não foi fácil convencer empresários a incluir mais uma rotina na boca do caixa.
?As pessoas não conheciam ONGs, tinham desconfiança sobre o uso do dinheiro e doar não era um hábito?, diz Weinfeld. ?Passamos um bom tempo criando um modelo sólido que resolvesse todos os desafios para empresas participarem.?
Também foi preciso apoiar o treinamento dos funcionários, que se tornam embaixadores da causa e sugerem, por exemplo, que uma compra de R$ 44,80 vire R$ 45.
?Nossa ferramenta não interfere na fila do caixa e gera uma ação social recorrente, com mecanismos de transparência para todos?, diz o economista.
A união com parceiros de tecnologia facilitou a participação de empresas, que têm à mão um sistema de transparência. Quanto foi arrecadado na minha loja? Que mês teve mais doações? Está tudo lá.
Outra barreira foi a legislação tributária no país. ?A gente precisou entender regras sobre isenção e imunidade que variam por estado e são complexas, burocráticas?, diz Bouskela. ?Em muitos estados, até mesmo doações de centavos são tributadas, o que torna nossa operação inviável.?
Com o crescente olhar da sociedade para causas sociais, ambientais e animais, estimular microdoações no ambiente virtual já estava nos planos do Arredondar quando as vendas no comércio eletrônico no Brasil cresceram 41% em 2020, de acordo com relatório Webshoppers da Ebit|Nielsen e do Bexs Banc.
?Começamos com arredondamento em lojas físicas e hoje buscamos ampliar parcerias no ecommerce e outros meios de pagamento?, afirma Ari Weinfeld.
Ainda em fase de customização de sistemas e busca por parceiros, o Arredondar cita a GOL Linhas Aéreas como caso de sucesso.
Ao final da compra online, a mensagem ?gostaria de arredondar sua viagem?? convida à doação. Já foram R$ 93 mil arrecadados na plataforma para as ONGs Todos pela Educação e Parceiros da Educação, escolhidas pela aérea.
Para Bia Bouskela, é preciso mobilizar mais pessoas e empresas para este círculo virtuoso. ?Estamos em 1.500 lojas. Imagina se todas as compras pudessem ser um momento de doação??
?Se a gente conseguir fazer 15% da população doar, já teremos cumprido nossa missão?, diz Weinfeld.