
A China vive um paradoxo difícil de ignorar. De um lado, acelera como nunca na corrida tecnológica global. De outro, convive com sinais persistentes de fragilidade econômica, desequilíbrios internos e desperdício de capital.
O país reduziu a distância em relação aos Estados Unidos em áreas estratégicas, mas o preço dessa estratégia começa a aparecer com mais clareza.
Em diferentes regiões do território chinês, fábricas automatizadas operam com tecnologia de ponta enquanto bairros permanecem esvaziados e o consumo segue contido.
Veículos elétricos produzidos localmente circulam em cidades com baixa atividade econômica. Ao mesmo tempo, robôs industriais avançam sobre linhas de produção em um mercado de trabalho que não consegue absorver jovens recém-formados.
Tecnologia chinesa cresce com forte presença do Estado
O avanço tecnológico da China não ocorre por acaso. Ele é resultado de uma política industrial agressiva, baseada em altos investimentos públicos e na busca por autossuficiência em setores considerados críticos.
A estratégia ganhou força diante das restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de semicondutores avançados, o que reforçou a percepção de vulnerabilidade externa em Pequim.
Nos últimos anos, os gastos chineses com pesquisa e desenvolvimento cresceram de forma acelerada, impulsionando áreas como inteligência artificial, robótica, veículos elétricos e indústria de defesa. O surgimento da startup DeepSeek simbolizou essa capacidade de competir em segmentos dominados por empresas norte-americanas.
Além disso, o país ampliou sua presença em setores estratégicos fora da economia civil. A Marinha chinesa lançou um novo porta-aviões com sistema de lançamento eletromagnético, enquanto o programa espacial avança com planos de levar astronautas à Lua até o fim da década.
Desperdício de recursos e baixa eficiência econômica
O problema é que esse modelo tem produzido distorções relevantes. A forte intervenção estatal direciona recursos para empresas que, muitas vezes, operam de forma deficitária e sobrevivem graças ao apoio de governos locais. O resultado é uma má alocação de capital em larga escala.
Na indústria de veículos elétricos, por exemplo, dezenas de marcas disputam espaço em um mercado saturado. A expectativa é que apenas uma parcela pequena dessas empresas consiga alcançar sustentabilidade financeira nos próximos anos. Situação semelhante ocorre no setor de robótica, que já apresenta sinais claros de excesso de oferta.
Esse padrão se repete em diferentes segmentos e pressiona as contas públicas. As dívidas dos governos locais cresceram rapidamente desde a pandemia, limitando a capacidade de investimento em áreas essenciais como saúde, educação e proteção social.
Consumo fraco e mercado de trabalho pressionado
Enquanto o investimento estatal cresce, o consumo das famílias segue enfraquecido. A queda prolongada dos preços dos imóveis reduziu a sensação de riqueza da população e estimulou uma postura defensiva. Famílias poupam mais e gastam menos, o que afeta diretamente o dinamismo da economia.
O mercado de trabalho reflete esse cenário. Empresas reduziram contratações e mantiveram salários sob pressão. A renda disponível nas áreas urbanas permanece baixa em termos globais, enquanto regiões rurais enfrentam limitações ainda mais severas. O desemprego entre jovens nas cidades tornou-se um dos principais desafios sociais do país.
Em algumas localidades, o contraste é ainda mais visível. Há municípios que ampliaram gastos com ciência e tecnologia mesmo diante da queda de arrecadação, ao mesmo tempo em que atrasos salariais passaram a atingir servidores públicos e trabalhadores essenciais.
Dívida pública e alertas de organismos internacionais
O acúmulo de desequilíbrios começa a chamar atenção fora da China. O Fundo Monetário Internacional avalia que o apoio estatal excessivo, na forma de subsídios, crédito barato e incentivos fiscais, tem custo elevado para a economia chinesa e reduz o potencial de crescimento no longo prazo.
A recomendação é clara: reequilibrar o modelo, reduzir a dependência de investimentos e exportações e estimular o consumo doméstico. Um sistema de proteção social mais robusto poderia aliviar a necessidade de poupança excessiva das famílias e destravar uma nova fonte de crescimento.
Exportações fortes e continuidade da estratégia
Apesar dos alertas, o caminho adotado pelo governo permanece praticamente inalterado. Sob a liderança de Xi Jinping, a China segue apostando na expansão das exportações como forma de compensar as fragilidades internas.
O superávit comercial atingiu níveis recordes, reforçando a competitividade da indústria chinesa mesmo diante de tarifas e tensões geopolíticas, especialmente após o retorno de Donald Trump ao centro do debate comercial global.
A orientação para reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros continua firme. Mesmo decisões pontuais, como a liberação de exportações de chips avançados pela Nvidia, não alteram o objetivo central de fortalecer a cadeia produtiva doméstica.
Inovação sem geração ampla de empregos
Outro desafio estrutural está na baixa capacidade de geração de empregos dos setores mais favorecidos pelos subsídios. Empresas de semicondutores e robótica operam com alta intensidade de capital e baixo contingente de trabalhadores, o que limita o impacto positivo sobre o mercado de trabalho.
Gigantes como a SMIC e fabricantes de robôs humanoides representam avanços tecnológicos relevantes, mas não resolvem o problema do desemprego urbano. Ao mesmo tempo, montadoras como a NIO seguem consumindo bilhões em aportes, mesmo com resultados financeiros frágeis.
O dilema chinês no longo prazo
A China construiu uma base tecnológica robusta e ampliou sua autonomia em setores estratégicos. No entanto, o custo econômico e social desse avanço se torna cada vez mais evidente. A combinação de endividamento elevado, consumo fraco e baixa eficiência na alocação de recursos impõe limites ao crescimento sustentável.
O desafio agora é transformar liderança tecnológica em prosperidade ampla. Sem ajustes no modelo, o país corre o risco de aprofundar seus desequilíbrios, mesmo mantendo sua posição de destaque no cenário global.