
O endividamento deixou de ser um problema localizado e passou a moldar a economia global.
Com a dívida pública se aproximando de 100% do PIB em vários países e juros ainda elevados, governos ao redor do mundo dedicam uma parcela crescente da arrecadação apenas para pagar encargos financeiros.
O resultado é um aperto fiscal que redefine prioridades, encarece o crédito e eleva o risco em 2026.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. A soma das dívidas públicas e privadas atingiu quase US$ 346 trilhões no terceiro trimestre de 2025, mais de três vezes o PIB mundial, segundo o Instituto de Finanças Internacionais. Em nove meses, o estoque global cresceu US$ 26 trilhões.
Dívida pública global dispara e puxa o risco fiscal
O motor da alta segue sendo o setor público. A dívida dos governos alcançou US$ 105,8 trilhões, equivalentes a 95,4% do PIB.
E a tendência é de avanço. Grandes economias operam com déficits elevados e já sinalizam estímulos fiscais para 2026. O alerta vem do Fundo Monetário Internacional: sem ajustes, o endividamento público pode chegar a 117% do PIB até 2027.
O dado novo não está apenas nos emergentes. Economias maduras aceleraram o ritmo recentemente, enquanto países como China, Brasil e México também renovaram máximas históricas. No topo do ranking, aparecem o Japão e a Itália, com dívidas que superam 140% do PIB.
Brasil no contexto da dívida: números e nuances
No Brasil, a dívida bruta do setor público estava em 78,6% do PIB em outubro, pelos dados do Banco Central do Brasil.
Pelos critérios do FMI, o indicador sobe para 90,9%, diferença explicada pela inclusão de títulos na carteira do BC usados em operações compromissadas, um estoque que se aproxima de R$ 2 trilhões.
Essa fotografia ajuda a entender por que o juro longo preocupa. Com taxas elevadas, o custo de carregar a dívida cresce e dificulta a redução do déficit nominal.
Juros elevados encarecem a rolagem da dívida
O mercado passou a cobrar mais prêmio para financiar governos. Nos EUA, a T-note de 10 anos paga mais de 4,10% ao ano, acima do juro básico. No Brasil, as taxas longas rondam 13%, mesmo com a Selic em 15%.
A dinâmica é delicada: juros altos elevam o custo fiscal; o fiscal pressionado mantém os juros elevados.
Em resposta, alguns Tesouros encurtam prazos. O efeito colateral é conhecido: a rolagem fica mais frequente, ampliando a sensibilidade a choques.
Pandemia, gastos e nova onda de endividamento
O caminho até aqui passa pela pandemia. Programas de apoio em larga escala e juros próximos de zero estimularam a tomada de crédito. Quando o ciclo virou para conter a inflação, o custo subiu, e o peso apareceu nos balanços públicos e privados.
Há ainda pressões adicionais. Gastos militares cresceram em grandes potências e, no setor privado, a corrida tecnológica impulsiona dívidas em áreas como inteligência artificial e transição energética, intensivas em capital e infraestrutura.
Riscos em 2026: o paredão dos vencimentos
O próximo ano concentra vencimentos expressivos. Países desenvolvidos precisarão refinanciar mais de US$ 16 trilhões; emergentes, US$ 8 trilhões, em grande parte em moeda local. A atração de capital privado e a coordenação de renegociações ganham centralidade para evitar rupturas.
Crise fiscal no horizonte?
O risco de calotes generalizados é baixo entre países desenvolvidos, à medida que o ciclo de juros avança.
Já no Brasil, o desfecho depende do ritmo e da profundidade do alívio monetário. A diferença entre Selic a 12% ou 9% muda o jogo para o custo da dívida, e para o fôlego fiscal.
Em síntese, a dívida pública virou um tema global. Em 2026, o teste será refinanciar volumes recordes num ambiente ainda exigente. O resultado dessa prova definirá o tom dos mercados e das políticas nos próximos anos.