Na guerra tarifária entre EUA e UE, o Brasil pode sair vencedor, é o que apontam especialistas ouvidos pelo BP Money. Fontes enxergam oportunidade na incerteza global causada pelas tarifas do presidente norte-americano, Donald Trump. Segundo eles, o empresariado brasileiro está atento as oportunidades que podem surgir em ambos os lados.
O que está acontecendo com o novo governo Trump e a imposição de tarifas pode ser visto como uma revolução do ponto de vista do comércio internacional, afirma Simone Deos, conselheira do Corecon-SP. A também professora da Unicamp relembra que desde os anos 90, o mundo tem caminhado para uma maior integração comercial com tendências a redução de barreiras econômicas.
“Estamos vendo agora um movimento inverso a todo esse processo. Imagino que as áreas internacionais das grandes empresas, assim como os departamentos de comércio dos governos estejam extremamente ocupados tentando acompanhar essa situação, a fim de entender como os agentes econômicos poderão se posicionar da melhor forma possível”, comentou.
Alexandre Fermanian, mestre em economia pela UFC (Universidade Federal do Ceará), destaca que do ponto de vista liberal e clássico das ciências econômicas, toda guerra tarifária representa um retrocesso para o livre comercio. Para ele, há uma preocupação unanime no setor privado que pode gerar custos na indústria a partir de insumos e oportunidades pelo agro.
“O Brasil poderá tirar proveito desse momento, fornecendo produtos e matérias-primas. Temos uma oportunidade de investir mais na infraestrutura brasileira”, explica.
Brasil sofre efeitos indiretos
Na visão de Ângelo Belitardo Neto, da Hike Capital, o impacto direto é limitado, mas os efeitos indiretos são significativos: “o país pode sofrer com a desaceleração do comércio global, aumento da volatilidade cambial e menor demanda externa em determinados setores.”
O analista ressalta que ao mesmo tempo, pode surgir a oportunidade de ocupar nichos deixados por exportadores europeus ou americanos afetados pelas tarifas. Segundo ele a experiência da guerra comercial entre Estados Unidos e China demonstrou que, quando duas grandes potências impõem barreiras entre si, países terceiros, como o Brasil, podem aumentar suas exportações.
“No contexto atual, há potencial especialmente para produtos agroindustriais, biocombustíveis, alimentos processados e commodities minerais. A Europa também tem aumentado a demanda por itens vinculados à transição energética e sustentabilidade, o que abre espaço para o Brasil”, reforçou
Neto pontua que segmentos como o agronegócio, a mineração e parte da indústria de base enxergam oportunidades pontuais para aumentar participação em mercados tradicionalmente dominados por europeus e americanos.
Resposta dos países será decisiva
Deos alerta que estamos diante de um cenário de transformação muito profunda, que representa uma ruptura nas estruturas que foram construídas nas últimas décadas.
“Esse movimento tem consequências que ainda não podemos avaliar completamente, pois dependerá de como cada bloco ou país conseguirá se posicionar diante dessa mudança.”
Fermanian converge, salientando que uma hegemonia de reações pode ser a melhor saída: “tudo irá depender se ocorrerá também uma redução no crescimento da economia global, o qual afetará até mesmo o Brasil, visto que as demandas por produtos entre os continentes que estão no meio das questões tarifárias.”