Mercado vê pouca chance de política de preços da Petrobras mudar

A terceira troca no comando da estatal em pouco mais de três anos foi vista de forma negativa pelo mercado.

Mercado vê pouca chance de política de preços da Petrobras mudar
Foto: reprodução google

O mercado vê poucas chances de mudança na política de preços dos combustíveis da Petrobras após a troca do general Joaquim Silva e Luna pelo economista Adriano Pires, anunciada nesta segunda-feira (28) pelo presidente Jair Bolsonaro (PL).

Pires é reconhecido como um defensor da abertura do setor de petróleo no país e a avaliação de pessoas da área e do mercado financeiro é que ele manterá seu posicionamento favorável à prática de preços de mercado.

Além disso, lembram executivos e analistas, o estatuto da Petrobras e a própria Lei das Estatais protegem a empresa contra interferências do acionista controlador sobre suas operações.

A terceira troca no comando da estatal em pouco mais de três anos, porém, foi vista de forma negativa pelo mercado. Para analistas do banco UBS BB, a mudança “pode levantar novamente questões sobre a governança e a independência da companhia”.

“Isso demonstra como o acionista majoritário interfere, ou tenta interferir, na política de preço da empresa”, afirma o presidente da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), Sérgio Araújo. “É uma empresa listada em Bolsa, isso não é muito bom.”
Araújo, porém, elogia a escolha do governo, dizendo que Pires é um dos maiores conhecedores do setor de petróleo brasileiro e que sempre demonstrou apoio à política de acompanhamento dos preços internacionais dos combustíveis.

“Não vejo risco de retrocesso. Seria uma surpresa muito ruim e não acredito, por todo o histórico, por todo o currículo do Adriano, que ele vá se alinhar numa gestão para fazer um retrocesso”, afirma.

Os analistas Bruno Amorim, João Frizo e Guilherme Costa Martins, do Goldman Sachs, lembram que Pires já defendeu a criação de um fundo de estabilização dos preços dos combustíveis, mas ainda assim mantendo a política atual.

“Ele afirmou que o fundo seria criado com dividendos da Petrobras e royalties, enquanto defendeu que o governo não interfira na política de preços da companhia”, escreveram, em relatório divulgado nesta terça (29).

Daniel Cobucci, do BB Investimentos, reforça que as frequentes trocas são prejudiciais à imagem da empresa, mas frisou que a Petrobras “possui mecanismos que protegem os acionistas minoritários contra eventuais ações que contrariem seu interesse, como a importação e venda com prejuízo no mercado doméstico”.

“Para promover alterações nessa estrutura [de governança] e na política de preços, principal risco para a tese de investimentos da companhia, seriam necessárias alterações legislativas e no estatuto da companhia, o que não nos parece o cenário base neste momento”, escreveu.

Bruce Barbosa, sócio fundador da Nord Research, destaca que a escalada dos preços dos combustíveis é um problema global, que não será resolvido pela troca do presidente da Petrobras –segundo ele, uma “solução fácil, rápida e errada” para uma questão complexa.
“Nada mudou. Procurando uma saída para a gasolina cara, o Brasil troca mais uma vez o presidente da estatal de acordo com as vontades políticas em Brasília”, escreveu Barbosa.

A indicação de Pires foi sacramentada em reunião no domingo (27) com o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e será avaliada pelos acionistas da Petrobras em assembleia agendada para 13 de abril.

Bolsonaro iniciou o mandato com Roberto Castello Branco no comando da empresa, mas o demitiu em fevereiro de 2021, já sob impacto da escalada dos preços dos combustíveis na sua popularidade.

Silva e Luna, seu substituto, chegou a reduzir a frequência de reajustes, mas manteve os preços internos dos combustíveis alinhados à tendência internacional. Em sua gestão, o preço da gasolina subiu 27% e o do diesel, 47%. O botijão de gás subiu 27% e o GNV (gás veicular), 44%.

Nesta terça, em palestra para militares, Silva e Luna voltou a defender a política de preços dos combustíveis e disse que “não há lugar para aventureiros” na Petrobras.