A última semana de agosto, de 24 a 30, reafirmou a posição de cautela dos mercados globais diante de tantas incertezas geopolíticas. As expectativas quanto aos juros dos EUA, o desenvolvimento do tarifaço e, no Brasil, o rally eleitoral deram o tom.
A próxima semana, de 31 de agosto a 6 de setembro, deve começar marcada também pela instabilidade geopolítica, principalmente entre Brasil e EUA, já que nesta sexta-feira (29) foram dados novos passos no julgamento de Jair Bolsonaro e quando à Lei de Reciprocidade.
Semana que passou: dados, juros e eleição
O discurso de Jerome Powell no Jackson Hole, na sexta-feira (22) da semana passada, deixou a porta aberta para uma possível queda dos juros dos EUA e os investidores brasileiros esperam que isso possa ser replicado no nosso país.
Dados como o relatório Focus foram importantes para entender “em que pé” o Brasil está. Um dos destaques foi a taxa Selic em 15%, mantida nesse patamar pela 11ª semana consecutiva, ainda refletindo a cautela diante da pressão externa. A projeção para o IPCA em 2025 está em 4,86%, abaixo dos 4,95% da semana passada
O IPCA-15, um dos dados mais aguardados da semana, mostrou uma deflação de 0,14% no mês de agosto. O resultado, contudo, não veio alinhado à estimativa do mercado, que esperava 0,19% de recuo,
Pedro Ros, CEO da Referência Capital, apontou um destacou a reforma tributária no campo político – que ainda pode dar o que falar na próxima semana. “No campo político, a reforma tributária voltou a ganhar força no Congresso, com discussões sobre simplificação de impostos e revisão das alíquotas para diferentes setores, enquanto o governo anunciou medidas de apoio ao agronegócio e às exportações como parte do plano de contingência contra o impacto tarifário americano.”
Ainda falando de política, Ibovespa renovou o recorde de máxima intradiária e atingiu os 142.027,63 pontos, com avanço de 2,03%, após a pesquisa LatAm Pulse, realizada pela AtlasIntel a pedido da Bloomberg News e divulgada nesta manhã, afirmar que o atual presidente Luíz Inácio Lula da Silva (PT) ficaria atrás de Tarcísio de Freitas (Republicanos), atual governador de São Paulo e favorito da Faria Lima, em um eventual segundo turno na corrida presidencial.
O ponto alto da semana dos EUA foi a divulgação do PIB do segundo trimestre, que cresceu 3,3%, acima das expectativas, mas vem desacelerando em relação ao trimestre anterior. Ros explica que o desempenho foi sustentado pelo consumo interno e pelos gastos do governo, enquanto investimentos e exportações mostraram sinais de enfraquecimento diante do aumento de barreiras comerciais.
A inflação dos EUA, medida pelo PCE, subiu 0,2% em julho, como apontou o relatório divulgado pelo BEA (Bureau of Economic Analysis) nesta sexta-feira (29). O PCE ficou em 2,6% em um ano — superior à meta de 2% perseguida pelo Fed (Federal Reserve). Resultado sugere uma desaceleração moderada e dando espaço para o Federal Reserve manter os juros no intervalo entre 4,25% e 4,50%.
“No entanto, a imposição de uma tarifa extra de 50% sobre produtos brasileiros e de 25% sobre carros e autopeças estrangeiros pelo governo Trump adiciona pressão inflacionária e riscos para a cadeia global de produção, especialmente na indústria automotiva. O mercado agora volta sua atenção para os próximos passos da política monetária americana e para os desdobramentos da guerra comercial, que podem influenciar o ritmo de crescimento da economia global nos próximos meses”, concluiu Pedro Ros.
Semana que chega: política monetária e desdobramentos do tarifaço
Nesta sexta-feira (29) ocorreram dois fatos que podem ser decisivos na semana que irá se iniciar em 31 de agosto.
A Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) dará início, na próxima terça-feira (2), ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de outros sete réus investigados no processo que apura uma tentativa de golpe de Estado ocorrida em 2022.
A análise do caso será conduzida pelo ministro Cristiano Zanin, presidente do colegiado, que agendou sessões extras para garantir o andamento da ação penal envolvendo o chamado “núcleo 1” da suposta articulação golpista.
O caso foi um dos “gatilhos” para que Donald Trump tomasse decisões comerciais contra o Brasil, o que torna esse julgamento um ponto de atenção para o mercado financeiro.
Paralelamente, o governo Lula deu o pontapé para o uso da Lei da Reciprocidade contra os EUA. Apesar de o presidente ter dito que não tem pressa para que a lei seja aplicada, o processo de dar início à retaliação já foi autorizado. “Espero que isso até possa ajudar a gente acelerar o diálogo e a negociação. Essa é a disposição que o Brasil sempre teve. Precisamos lembrar que temos 201 anos de parceria e amizade com os Estados Unidos e que temos uma boa complementariedade econômica”, disse Alckmin, vice-presidente do Brasil e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Nos EUA, os números do mercado de trabalho de agosto podem ser decisivos para
confirmar a retomada dos cortes de juros pelo Fed na reunião de setembro.
Devido ao feriado na segunda-feira, a divulgação da oferta de vagas JOLTS de
julho ocorrerá na quarta-feira, mesmo dia do Livro Bege do Fed.
“A grande expectativa, no entanto, está na sexta-feira, com a divulgação do relatório de empregos não agrícolas (payroll) e da taxa de desemprego. A perspectiva é de continuidade da desaceleração do mercado de trabalho com previsão de criação de 78 mil vagas ” explicou Leandro Manzoni, analista de economia do Investing.com.