O presidente Donald Trump, à esquerda, se reúne com Xi Jinping, principal líder da China, em Busan, Coreia do Sul, na quinta-feira, 30 de outubro de 2025 (Haiyun Jiang/The New York Times)
Foto: Haiyun Jiang/The New York Times

A pergunta que passou a circular em mesas de análise, gabinetes diplomáticos e salas de risco de grandes empresas tem formato direto: China pode atacar Taiwan depois do ataque dos EUA à Venezuela? A hipótese não nasce apenas do noticiário de conflito.

Ela surge do efeito que um episódio como esse produz no sistema internacional quando o uso da força ganha espaço como ferramenta de política externa, alterando incentivos, custos e cálculos de resposta.

Na leitura de Ana Cláudia Ruy Cardia, professora de Direito Internacional da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o ataque norte-americano não fica restrito ao impacto regional. Ele mexe com o arranjo jurídico e político que sustenta a previsibilidade entre Estados.

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela viola, sim, o direito internacional em milhares de pontos, sobretudo na questão do uso de medida de força e também não declarado previamente de acordo com a Carta da ONU”, afirmou. Para ela, o caso representa “violação gravíssima” e “desrespeito a um princípio basilar do direito internacional, que é o da soberania”.

Essa avaliação importa porque Taiwan costuma ser enquadrada por Pequim como tema de soberania e integridade territorial.

Quando um ator com poder militar e diplomático redefine o limite do aceitável, outros atores observam o que acontece depois: se há custo, se há reação, se há isolamento, se há sanção, se há contenção. É nesse ponto que a Venezuela pode virar laboratório político, não por semelhança direta entre teatros, mas pelo precedente que se tenta construir na prática.

Direito internacional e precedente: o que o caso sinaliza

Ao comentar o enquadramento jurídico do ataque, Ana Cláudia foi objetiva sobre a base normativa que, em tese, organiza o uso da força. “Houve um desrespeito a um princípio basilar do direito internacional, que é o da soberania”, disse. Na mesma linha, ela citou o problema do emprego de força sem declaração prévia sob parâmetros da Carta da ONU.

A partir daí, o debate deixa de ser apenas “o que aconteceu na Venezuela” e passa a ser “o que passa a ser possível”. A professora entende que o episódio alimenta uma sequência de efeitos. “Esse já era um movimento bastante claro também que estávamos vendo a partir de outros conflitos”, afirmou, ao citar casos conhecidos do público: “Quando a gente vê a própria invasão russa na Ucrânia, a gente pensa também na Palestina, dentre outros conflitos”.

Na visão dela, o sistema internacional entrou em fase em que violações acumuladas não geram resposta proporcional. “Isso realmente tem mostrado que tem havido uma certa apatia de tentar evitar esses conflitos, mas também um desmonte muito claro do sistema internacional que tem permitido essas violações e a normalização dessas violações”, disse.

Para Taiwan, esse tipo de diagnóstico tem implicação direta. Se o sistema que deveria conter o uso da força perde capacidade de resposta, cresce o espaço para ações que testem limites. A questão, então, não é prever uma data ou um plano. É entender se a mudança de ambiente reduz a percepção de risco para quem pensa em agir.

China, Taiwan e “zonas de influência” no cálculo de poder

Ao explicar por que o ataque dos EUA reverbera para além da América Latina, Ana Cláudia apresentou um conceito central: zona de influência. Para ela, a mensagem não se dirige apenas à Venezuela. “A mensagem dos Estados Unidos… é claramente uma mensagem para esses dois territórios, para que eles entendam também sobre zonas de influência e de poder”, afirmou, ao conectar o episódio aos interesses das grandes potências.

A professora lembrou que, antes da ofensiva, havia movimentações chinesas em acordos e compras de petróleo na Venezuela. “A China também estava tentando renegociar acordos bilaterais de investimento, compra também de petróleo na Venezuela”, disse. Na leitura dela, esse movimento foi percebido como “conceito de ameaça da China em ter uma influência geopolítica na região, na América Latina como um todo”.

A partir desse ângulo, o episódio vira um recado de capacidade e disposição. “Esse é um recado dos Estados Unidos, muito claro, sobre o uso possível da força em uma região em que eles entendem como se fossem realmente os principais controladores”, afirmou.

O ponto que conecta isso a Taiwan não é geografia, e sim método. Se o mundo passa a operar com “zonas” onde potências se comportam como controladoras, a lógica pode ser replicada em outras regiões. E Taiwan, por razões históricas e estratégicas, já é tratada pela China como parte do seu espaço de interesse.

Normalização do uso da força e o risco de contágio para outros teatros

O tema “efeito dominó” aparece quando se discute precedentes. Ana Cláudia não trata isso como hipótese distante. “O mundo, infelizmente, está entrando em uma fase de normalização do uso da força como instrumento político. Na verdade, a gente já vinha vendo isso há alguns anos”, afirmou.

Ela também conectou a normalização à dificuldade de coordenação internacional. “A gente tem realmente de repensar as estruturas, as estratégias e como o direito internacional vai responder a esses problemas”, disse.

No trecho em que menciona possíveis desdobramentos, Taiwan aparece como exemplo de território sensível em um cenário de disputas entre potências. “Pensando em Taiwan, pensando em outros territórios que sejam de interesse também das grandes potências”, afirmou, ao citar áreas de exploração e projeção de poder.

Esse é o ponto em que a pergunta “China pode atacar Taiwan?” ganha uma moldura mais realista: não como previsão, mas como consequência de um ambiente no qual ações de força passam a entrar no repertório de decisões de política externa com mais frequência, e com tentativas de justificar essas ações por narrativas de interesse, segurança ou influência.

Petróleo, minerais críticos e cadeias de suprimento: o que está em jogo

A professora coloca o petróleo como parte de um pacote maior de interesses, sem tratá-lo como elemento isolado. “O petróleo é uma variável dessa disputa geopolítica… uma variável importantíssima”, afirmou, e em seguida conectou o tema à dependência de combustíveis fósseis e à discussão de transição energética. Ela também lembrou que o debate não fica apenas no petróleo: “A Venezuela é rica em minerais críticos”, disse.

Quando o assunto migra para outros territórios citados por ela, como Groenlândia e Ártico, o eixo volta a ser minerais e logística. “A Groenlândia também, porque eles têm interesses… em relação a minerais críticos… e toda uma questão de logística, transporte… na região do Ártico”, afirmou.

Por que isso se conecta a Taiwan? Porque Taiwan está no centro de cadeias tecnológicas e industriais que são tratadas por governos como ativos estratégicos. Quando conflitos passam a ser justificáveis, direta ou indiretamente, por controle de recursos, rotas e influência, a linha entre economia e segurança deixa de ser separável.

Na prática, esse cenário impõe decisões de gestão de risco para empresas: desenho de fornecedores, estoques, seguros de transporte, contratos de longo prazo e exposição cambial. Para investidores, o efeito costuma aparecer em prêmios de risco, volatilidade em commodities e migração de fluxo para ativos considerados mais líquidos.

O custo do “América para os americanos” e o que isso ensina sobre Taiwan

Ana Cláudia também tratou da ideia de “América para os americanos” como parte do discurso político contemporâneo. Para ela, a expressão dialoga com um projeto de proteção econômica doméstica, mas produz uma pergunta que não cabe só a Washington. “A pergunta que fica é: a que custo?”, afirmou.

Ela detalhou o dilema ao relacionar o conceito ao tema da soberania: “Será que a América para os americanos significa também violar gravemente e flagrantemente outras soberanias? Violar o direito internacional?”, questionou. Em seguida, conectou a discussão ao nacionalismo sustentado por violações: “A partir de graves violações ao direito internacional e ao conceito de soberania”, disse.

Esse raciocínio ajuda a responder a pergunta sobre Taiwan por um caminho mais sólido: se a política externa assume a lógica de “esfera própria” e admite coerção para preservá-la, abre-se espaço para que outras potências defendam suas próprias esferas com o mesmo argumento. Taiwan, nesse caso, vira termômetro porque já concentra tensões acumuladas e porque envolve dissuasão, tecnologia e prestígio de poder.

Então, China pode atacar Taiwan?

Com base no que Ana Cláudia descreve, o ponto central não é afirmar que haverá ataque, mas mostrar como o ambiente muda. Ao classificar a ofensiva como violação ampla do direito internacional e ao apontar “normalização” do uso da força, ela descreve um cenário em que os freios institucionais perdem efeito e em que potências testam linhas.

Quando ela diz que “a retórica de anexação… traz, sim, um risco real… de uma nova intervenção… em busca pela garantia dos seus interesses próprios”, o que aparece é a lógica: interesses, influência e manutenção de poder. “Existe, sim, o risco real de invasão de outros territórios”, afirmou, ao explicar que isso se relaciona a interesses geopolíticos em um mundo multipolar.

Taiwan entra nesse mapa por ser um dos pontos onde interesses e soberania se chocam com mais visibilidade. Se a comunidade internacional não constrói respostas consistentes para o uso da força, o cálculo sobre custos futuros fica mais nebuloso. E, nesse contexto, a pergunta China pode atacar Taiwan deixa de ser provocação de rede social e passa a ser um tema de análise de risco — político, institucional e econômico.

No fim, a advertência da professora é sobre método e consequência. “Esses conflitos vão impactar praticamente todo o planeta”, afirmou, citando efeitos econômicos, sociais e culturais. Para ela, os riscos “caminham em conjunto” e “vão se retroalimentando”, resultando em “tensão institucional em nível global”.