“A competição piorou e os negócios devem seguir na mesma linha”, afirma economista sobre a crise dos bancos

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Apesar de sempre terem composto um setor bastante consolidado, oferecendo grande retorno, os bancos são alguns dos negócios que mais sofrem para retornar aos níveis pré-pandemia. Além disso, empresas como Nubank e Inter, as chamadas fintechs, ganham cada vez mais espaço no mercado, principalmente com a digitalização dos serviços, aumentando a competição e agravando ainda mais a situação dos bancos tradicionais.

Diante desse cenário, convidamos João Nerasti, formado em economia pela Universidade de São Paulo e analista de investimentos da Indie Capital, para analisar as causas desse fenômeno, o papel das fintechs nos negócios bancários e quais são as expectativas para o futuro do setor.

Para o economista, as principais barreiras de entrada no setor bancário já caíram. Hoje, é muito mais fácil ingressar no setor, aumentando a competição. Além disso, a qualidade dos produtos, a regulamentação e a reputação dos bancos tradicionais agravam ainda mais a crise. Nerasti comentou, ainda, sobre as medidas dos bancos para conter os efeitos da pandemia e sobre o possível impacto no novo escândalo global envolvendo US$ 2 trilhões em movimentações financeiras suspeitas.

Confira a íntegra da entrevista:

O setor bancário sempre foi um dos mais consolidados, mas sofre para se recuperar da desvalorização do início do ano. Quais são os motivos para essa crise?

Nós temos uma visão pouco construtiva sobre os bancos já há alguns anos. Os bancos eram quase a maior participação dentro do nosso portfólio, mas desde 2019 nós praticamente não temos bancos na Indie. Em nossa visão, o negócio se deteriorou. Historicamente, eles foram capazes de entregar um retorno bem superior que o custo de capital deles, mas temos que entender as razões desse alto retorno, que estão ruindo. Primeiro, a distribuição. Em meados dos anos 2000, vários bancos estrangeiros tentaram ingressar no país, mas não tinham recursos de distribuição, como agências e maneiras de acesso aos clientes. Quando olhamos para esse ponto, vemos que a distribuição mudou muito com a tecnologia online. O Nubank é nossa evidência mais emblemática, assim como o Inter, que não têm distribuição física e contam com uma base de clientes muito relevante. Então, esse pilar é muito mais fraco hoje. Além disso, há o custo de sistema, com tecnologia da informação e processamento de dados, que hoje é muito baixo. Essa era uma barreira de entrada importante e caiu, não é à toa que temos tantos bancos surgindo. A competição piorou e o negócio deve seguir a mesma linha. Por último, havia o monopólio de dados. Os bancos sabiam sua renda, seu padrão de gastos, tudo. Hoje, apesar de ainda ser assim, a agenda do open bank tenta atacar essa raiz, fazendo com que o monopólio de dados tenda a cair, o que significaria uma perda de vantagem competitiva extremamente importante. 

Nesse cenário, como as fintechs estão ganhando espaço no país?

Acho que há um conjunto de fatores que favorece a ascensão dos entrantes. Junto com as barreiras menores, há o fato de que os serviços oferecidos pelos novos bancos são superiores. Os bancos tradicionais estão competindo oferecendo um produto pior e sem as vantagens competitivas do passado. Ainda há uma questão qualitativa da reputação dos bancos. A população não os vê com bons olhos, e os entrantes têm justamente a proposta de uma nova relação com o cliente. Por fim, há a questão regulatória. O Banco Central tem adotado medidas para manter a estabilidade e fugir de crises como as da década de 90, mesmo que em detrimento da competição. Ele ajudou o setor a se consolidar no Brasil, mas agora está adotando posturas pró-competição, mudando a regulamentação para que os novos entrem mais facilmente no mercado. Hoje, as exigências são muito menores, de forma que o pequeno consegue entrar no mercado e quebrar os outros. Faz sentido os bancos valerem menos, pois o negócio se deteriorou.

Os bancos estão baratos?

Para a gente, barato é comprar algo por menos do que ele vale dentro da matriz de risco. Tendo isso em mente, quando olhamos para os bancos no Brasil, a relação entre preço e valor patrimonial parece baixo, mas não é apenas aqui. Ele está na mediana dos últimos anos, às vezes até acima. Você pensa que está barato no Brasil, mas é um efeito global, e talvez em outros países esteja mais baixo que aqui. Não é algo tão óbvio.

Você acha que essa tendência será mantida no futuro?

Acredito que sim. A pandemia impactou principalmente as pequenas empresas e as pessoas físicas, justamente os tipos de clientes sobre os quais os bancos têm maior exposição. Por isso, acho que a crise irá afetá-los ainda mais. Nos EUA, o Fed faz testes de spread periódicos e estão cogitando postergar o pagamento de dividendos nos bancos de lá, o que é um indício de que o impacto pode ser bem adverso no setor. Além disso, há o efeito da digitalização. Com o isolamento social, muitas pessoas se abriram às ferramentas bancárias digitais, e podem ficar por lá definitivamente. Por outro lado, a digitalização traz efeitos positivos, como a redução de custos. Porém, nossa impressão é de que é muito mais fácil perder receita do que cortar custos. Assim, se olhamos num horizonte para os próximos 3 anos, não temos uma visão positiva para os bancos.

Você acredita que as fintechs são um perigo real para os bancos?

Eu as considero um perigo relevante. Há toda a questão de que as fintechs não são rentáveis, mas o Nubank, por exemplo, já captou 10 milhões de clientes em um ano. Minha impressão é de que o Nubank está num caminho para se tornar rentável, e me assusta um pouco que o Brasil tenha duas das maiores fintechs do mundo. O Brasil não tem a maior empresa de quase nada, com exceção de cervejaria. Por que temos duas gigantes aqui? Acho que o mercado estava à beira da absolvição. Por isso, damos muito valor às fintechs, embora achemos que elas vão demorar para começar a atacar o crédito, que tem resultado muito relevante.

Como você avalia as medidas dos bancos na crise atual? Elas foram o suficiente?

Acho que os bancos fizeram o que tinham que fazer. O grande problema no começo da crise era de liquidez, pois os clientes precisavam de dinheiro para arcar com o rombo do fluxo de caixa. Num momento como esse, acredito que a medida correta é oferecer liquidez a esses clientes, e foi justamente o que eles fizeram. A gente pensa em pessoas físicas negociando, pequenas e médias empresas fazendo o mesmo movimento, em grandes empresas a gente viu empréstimo de dinheiro na corrida por liquidez das grandes empresas. Olhando de fora, me parecem as medidas mais corretas. Num segundo momento, eles subiram a régua, precisaram ser mais restritivos, o que também considero correto, já que a incerteza estava gigantesca. Agora, estamos vivendo uma grande dúvida no mundo inteiro e um grande desafio para os reguladores. E se essas medidas de liquidez se converterem em problemas de insolvência e em perda de dinheiro? Por isso, acho que não dá para usar as crises do passado como benchmark. Tudo aconteceu muito rápido, acho que será muito mais perverso que nas crises passadas. Os bancos podem estar mais confortáveis em provisionamento, mas de fato acho que será um ano relevante em distinção de valor para os bancos.

Sobre o novo escândalo envolvendo os bancos internacionais, você acredita que isso pode impactar o setor no Brasil?

Acho que pode, mas seria um motivo ruim. Mundialmente, os bancos têm uma relação muito grande, quando começam a subir lá fora, também sobem aqui. Mas isso é quando há questões mais macro, que ditam o setor de uma forma global. Acho que esse escândalo é muito específico, não vejo muitos motivos para impactar os bancos aqui.

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