
O fim de 2025 deixou uma herança para 2026: a conversa sobre bolha da IA deixou de ser um tema de nicho e virou pauta de estratégia.
Para Charles Mendlowicz, sócio da Ticker Wealth e criador do canal Economista Sincero, a discussão não é sobre “acreditar ou não” em inteligência artificial, mas sobre como o mercado precifica essa narrativa, e o que acontece quando a liquidez muda.
“O rali da inteligência artificial (IA) acende uma bolha. Eu concordo e também estou preocupado”, disse Mendlowicz, ao comentar a sequência de altas que colocou tecnologia no centro do apetite por risco.
Bolha da IA e ações de tecnologia: onde está o risco
Na leitura do economista, um ponto chama atenção: a rede de investimentos cruzados e parcerias no setor, que cria interdependência entre empresas e amplia o efeito dominó quando o humor do mercado muda.
Ele cita gigantes como Disney, Amazon e Nvidia como exemplos de companhias que seguem ampliando presença em tecnologia, inclusive com movimentos acionários que ganham peso na precificação.
Na segunda-feira (29), por exemplo, a Nvidia concluiu a compra de uma participação de US$ 5 bilhões em ações da Intel, operação que já havia sido anunciada anteriormente e foi formalizada em documento regulatório.
Para Mendlowicz, o debate não é “se IA importa”, mas como o investidor lida com concentração. Se uma carteira fica dependente de um único tema, o risco aparece quando o fluxo muda de direção, mesmo que as empresas sigam entregando produto e receita.
Demissões por IA: números, narrativa e custo
Outra peça do quebra-cabeça envolve emprego. Em 2025, empresas nos EUA atribuíram cerca de 55 mil demissões à adoção de inteligência artificial, segundo dados compilados pela consultoria Challenger, Gray & Christmas e reportagens baseadas nesses levantamentos.
Mendlowicz questiona o uso do argumento “IA” como explicação padrão para cortes. Na avaliação dele, a justificativa funciona como proteção reputacional em momentos de ajuste de custos e correção de excesso de contratações.
“Ao dizer que a IA é a causa da demissão, a empresa transfere a responsabilidade para a evolução tecnológica… A IA acaba servindo como um escudo para decisões administrativas”, avaliou.
Ele também aponta que a mudança de postura ganhou velocidade depois que Elon Musk promoveu uma redução ampla no antigo Twitter (atual X) e a operação continuou, um episódio que, segundo o economista, reforçou a ideia de “enxugamento possível” dentro das big techs.
Juros nos EUA e Fed: o gatilho que mexe no mundo
O eixo macro, para Mendlowicz, segue sendo o Fed. A lógica é simples: quando os juros nos EUA cedem, o investidor tende a buscar mais risco; quando eles resistem, o capital ganha incentivo para ficar em ativos dolarizados e de menor volatilidade.
O economista comentou que um PIB dos EUA mais forte pode virar problema se limitar a queda de juros. “Se a economia crescer demais, o Federal Reserve (Fed) pode ser impedido de baixar os juros, o que devasta a economia mundial e interrompe o fluxo de capital para mercados emergentes como o Brasil”, disse.
O ponto central aqui não é prever um único cenário, mas entender o “efeito alavanca” da taxa americana sobre bolsas, moedas e crédito, especialmente em momentos em que tecnologia já carrega múltiplos elevados e depende de continuidade de liquidez.
Ouro e prata em 2025: o que a alta diz sobre o investidor
Enquanto tecnologia dominou manchetes, metais também entraram no radar. No fim de dezembro, o ouro rompeu o patamar de US$ 4.500 e a prata encostou em US$ 75, em meio a uma corrida por proteção e reposicionamento de portfólio.
Na visão de Mendlowicz, esses movimentos ajudam a contar uma história: parte do mercado não ficou apenas em “crescimento e IA”. Houve busca por ativos tangíveis e proteção, o que pode ganhar novo capítulo em 2026 caso a volatilidade aumente.
Estratégia para 2026: diversificação e aporte com método
Apesar do tema bolha da IA atrair clique e conversa, Mendlowicz evita a tese do pânico como estratégia. Ele defende rebalanceamento: reduzir concentração em tecnologia, revisar pesos e buscar setores com demanda recorrente.
A lista de áreas citadas por ele passa por energia, saneamento e bancos, além de ativos reais e exposição internacional com critério. O objetivo é atravessar ruídos sem depender de uma única narrativa.
“A crise é amiga do investidor na hora de fazer o aporte… vamos tentar pensar a longo prazo porque é isso que dá dinheiro”, concluiu, ao lembrar o estilo de Warren Buffett de manter posições por anos em empresas que geram caixa.
No fim, 2026 começa com uma pergunta prática: sua carteira está montada para um mercado que pode alternar entre euforia e correção? Se a resposta for “não sei”, o sinal está dado, e o ajuste pode começar com menos concentração e mais disciplina. E, sim, com atenção redobrada à bolha da IA.