Memória RAM
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A corrida global pela inteligência artificial transformou a memória RAM (componente essêncial na produção de computadores, celulares e consoles) em um dos principais gargalos da indústria de tecnologia. A explosão da demanda por chips de alta performance, como DRAM, DDR5 e, sobretudo, HBM (High Bandwidth Memory), elevou os preços a patamares históricos, impulsionou os lucros das fabricantes e começa a gerar impactos diretos no custo dos produtos.

Enquanto gigantes da tecnologia como garantem suprimento a qualquer preço para sustentar os investimentos em projetos de IA, consumidores e fabricantes de eletrônicos tradicionais sentem os efeitos colaterais de um mercado cada vez mais pressionado. O movimento reacende, inclusive, o debate sobre um novo superciclo dos semicondutores, e o risco de desequilíbrios no médio prazo.

O que está acontecendo no mercado de memória

A mudança estrutural começa nos data centers. Servidores dedicados a aplicações de inteligência artificial consomem até dez vezes mais memória do que servidores tradicionais, um salto que redesenha a dinâmica de toda a indústria de semicondutores.

Esse desequilíbrio já se reflete nos preços. Até julho de 2025, o valor médio de um módulo de memória DDR5 girava em torno de US$ 100, segundo o site norte-americano PCPartPicker. Atualmente, esse mesmo componente registra uma valorização que chega a 300%, com preços flutuando na faixa de US$ 450.

Nos últimos doze meses, contratos de fornecimento de DRAM e DDR5 acumularam altas superiores a 100%, de acordo com dados do setor. Ao mesmo tempo, fabricantes como Micron, Samsung e SK Hynix anunciaram investimentos bilionários para ampliar capacidade produtiva, porém com foco claro em memórias premium usadas em aceleradores de IA.

O efeito colateral é direto: a oferta de memória destinada a PCs, notebooks e dispositivos de uso cotidiano torna-se cada vez mais restrita, pressionando custos ao longo de toda a cadeia de tecnologia.

Por que a memória ficou escassa

O ponto central está na realocação da produção. Fabricantes estão direcionando linhas antes dedicadas a DRAM e DDR5 para a fabricação de HBM, memória essencial para aceleradores de IA utilizados por empresas como a NVIDIA.

A HBM consome até três vezes mais wafer por bit do que a DRAM convencional. Em compensação, oferece margens muito superiores. Do ponto de vista econômico, a decisão é racional. Do ponto de vista do mercado, cria um efeito colateral relevante: menos memória disponível para o segmento de consumo.

Esse desequilíbrio tende a persistir. A expectativa do setor é que a oferta de DRAM e DDR5 siga limitada ao menos até 2027 ou 2028.

A demanda por memória é estrutural?

Para Wally Niz, especialista em tecnologia e diretor de marketing e vendas da Navita Enghouse, a pressão atual não é conjuntural.

Segundo ele, o uso intensivo de memória está diretamente ligado às arquiteturas atuais de IA. “Existe uma explosão de novos data centers dedicados à inteligência artificial, mas também de servidores que consomem grandes volumes de DDR5, que se tornou um ativo estratégico para muitos países”, afirma.

Ainda assim, há espaço para ganhos de eficiência. Técnicas como quantization, que reduzem a precisão de cálculos em modelos de linguagem, já estão sendo adotadas para diminuir o consumo de memória. No entanto, esse movimento é gradual e insuficiente, no curto prazo, para aliviar a escassez.

Superciclo ou superfaturamento?

A combinação entre demanda explosiva e oferta concentrada cria um ambiente típico de superciclo. “A fabricação de memória RAM depende de uma cadeia extremamente complexa e concentrada em poucas empresas. Com a produção direcionada para um mercado mais lucrativo, os preços sobem”, explica Niz.

O cenário também levanta questionamentos sobre poder de mercado. A concentração da produção permite decisões estratégicas que priorizam margens, não volumes, o que contribui para a escalada dos preços.

Quem paga a conta

Os impactos já começam a aparecer no consumidor final. Fabricantes de eletrônicos têm repassado parte do aumento de custos:

  • Preços de PCs, notebooks e consoles sobem, pressionados pelo custo da memória
  • Smartphones devem registrar reajustes médios de até 6%, segundo estimativas do setor
  • Módulos DDR5 já acumulam altas de até 170%
  • OEMs reduzem a quantidade de RAM padrão para conter preços finais

Na prática, equipamentos que antes saíam de fábrica com 16 GB de RAM agora chegam ao mercado com 8 GB, mantendo o mesmo valor.

Como a indústria está reagindo

No Brasil, fabricantes de nicho buscam alternativas para mitigar os efeitos da escassez. A Avell, especializada em notebooks e estações de trabalho de alta performance, decidiu não comprometer a qualidade dos produtos.

“Nossa estratégia foi apostar na modularidade inteligente”, afirma o CEO da companhia, Vladimir Rissardi. Em vez de entregar configurações fechadas e infladas, a empresa opta por máquinas com memória expansível, oferecendo liberdade ao consumidor para realizar upgrades quando o mercado se normalizar.

A empresa também diversificou sua cadeia de suprimentos e reforçou estoques estratégicos para reduzir riscos de ruptura.

Renovação de PCs pode desacelerar?

No mercado de massa, a resposta tende a ser positiva. O encarecimento da memória pode adiar ciclos de renovação. No segmento profissional, porém, o impacto é menor.

Aplicações como IA local, renderização e processamento em tempo real tornam o upgrade inevitável. “O ganho de produtividade com novas CPUs e GPUs compensa o investimento”, avalia o CEO da Avell.

Há risco de bolha?

O setor de semicondutores é historicamente cíclico. Altas de preços costumam gerar superinvestimentos e, mais adiante, excesso de oferta. Desta vez, porém, o ciclo apresenta diferenças importantes.

Os fabricantes priorizam margens elevadas em vez de expansão agressiva de capacidade. Além disso, a IA tem caráter estrutural e transversal, o que sustenta a demanda por mais tempo.

O risco existe, mas o horizonte parece mais longo do que em ciclos anteriores.

O gargalo pode frear a própria IA?

No curto prazo, a escassez de memória encarece a infraestrutura. No longo prazo, especialistas apontam outro risco ainda maior: energia elétrica. Além disso, em alguns países, a expansão acelerada de data centers já começa a gerar impactos no consumo local.

A inteligência artificial segue avançando, mas com custos crescentes e assimétricos. A memória RAM, antes um componente quase invisível, tornou-se peça central da nova economia digital, e um dos principais testes de equilíbrio para a indústria global de tecnologia.