tarifas trazem oportunidades
Dólar/Foto: CanvaPro

Especialistas ouvidos pelo BP Money afirmaram que, apesar de ter completa certeza, o atual cenário favorece o real em detrimento do dólar. De acordo com eles, juros mais baixos no exterior favorecem os países emergentes e o Brasil pode se favorecer disso.

Em 29 de outubro, o  Fed (Federal Reserve) anunciou um corte de 0,25 ponto percentual nas taxas de juros dos EUA, que passam a variar entre 3,75% e 4% ao ano, conforme decisão do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto)

No Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) decidiu manter a taxa Selic em 15% a.a. (ao ano), em linha com as previsões dos analistas.

Cenário Econômico e o Real

“Como o Brasil ainda não entrou nesse ciclo de corte de juros, acaba que o diferencial de juros entre o nosso país e os EUA contribui para queda no câmbio. Essa diferença em relação às economias centrais, especialmente nos EUA, torna o real mais atrativo para investidores globais, que buscam rendimento maior em países emergentes”, explicou Bruno Rocio, assessor de investimento na Raro Investimentos.

Rocio detalhou que, na prática, quando o diferencial de juros se encontra num patamar tão elevado, a percepção de risco doméstico diminui – mesmo que ainda haja alguma preocupação com o equilíbrio fiscal doméstico -, o que tende a fortalecer o real frente ao dólar. “Pelo menos essa é a tendência de curto prazo”.

O assessor também chamou a atenção para o fato de que o dólar mais barato não pe exclusividade do brasil, e que a política monetária adotada pelo EUA tem enfraquecido a moeda globalmente.

“No geral, os economistas acreditam que essa estratégica da Casa Branca tem por objetivo manter um dólar mais fraco. Isso na prática torna a exportações dos EUA mais competitivas e diminui a importação dos produtos vindos de fora, estimulando a indústria local

“Não é o nosso real que se valoriza, é o dólar que se desvaloriza no mundo”

A perspectiva de Rocio é compatível com a de Leonardo Santana, especialista em investimentos e sócio da casa de análise Top Gain. Santana explicou que estamos numa “bolha de otimismo“, que influencia, inclusive, o movimento do Ibovespa.

“A gente tem que lembrar que a gente está em otimismo, que a gente pode, ainda, renovar a mínima do ano se isso acontecer rápido. A gente tem que lembrar que todo final de ano é normal que saiam remessas de dólar para fora, que impulsionam sempre o nosso o nosso dólar no finalzinho de ano, entre o final dezembro e o início de dezembro. Então, a gente tá otimista podendo ter uma realização a qualquer momento”, destacou.

Santana também reafirmou que não é, necessariamente, o real que está se valorizando, mas o dólar que está perdendo valor mundialmente.

“A gente tem dois motivos para o dólar estar se desvalorizando no ano. Primeiro é o próprio Donald Trump com suas tarifas, com a sua política um pouco mais rígida, faz com que tenha um pouco de saída de capital dos Estados Unidos. Depois das tarifas, teve uma grande imigração de capital, principalmente para primeiras divisas, fazendo com que o dólar se desvalorizasse”, comentou o especialista em investimentos.

“Então a gente tem o ponto ação número, que não é o nosso real que se valoriza, é o dólar que se desvaloriza no mundo. E nós temos o nosso real se valorizando muito por conta do diferencial de juros. Isso pode se acentuar ainda, mas novamente, e a gente pode estar no final de um ciclo de otimismo, concluiu.

Juros altos sustentam o real, mas risco fiscal preocupa

A economista Raissa Florence, sócia-diretora da Oz, avalia que o cenário atual ainda sustenta uma vantagem para o real frente ao dólar, impulsionada pelo diferencial de juros e pela atratividade do Brasil nas operações de carry trade.

Segundo a economista, a combinação entre uma Selic ainda elevada e o início do ciclo de cortes nos EUA mantém o fluxo de capital externo positivo para o país.

“A perspectiva do Dólar vs Real no cenário atual com a Selic ainda em patamar elevado e o ciclo de cortes nos EUA ganhando tração é que o diferencial de juros siga favorecendo o real via carry trade”, afirma Florence.

A economista observa que a percepção de disciplina monetária doméstica também contribui para um câmbio mais estável no curto prazo, ainda que o movimento dependa da evolução do ambiente internacional e da condução da política fiscal no Brasil.

“Isso, somado a um dólar global mais fraco e à percepção de disciplina monetária doméstica, sustenta um câmbio mais alto no curto prazo”, diz.

No entanto, Florence faz um alerta: o risco fiscal segue sendo o principal ponto de atenção. Qualquer sinal de deterioração nas contas públicas pode inverter a tendência positiva e gerar pressão sobre a moeda brasileira.

“No entanto, o risco fiscal segue como principal ponto de atenção: qualquer sinal de deterioração nas contas públicas pode devolver a diferença (ou o prêmio) à curva e gerar pressão sobre o câmbio”, afirma.

Ela acrescenta que, nas projeções atuais, o mercado trabalha com o dólar entre R$ 5,40 e R$ 5,50 até o fim do ano, mas que o cenário pode variar conforme o humor externo e as sinalizações do governo.

Em caso de melhora no ambiente global, há espaço para recuo até R$ 5,20, enquanto ruídos fiscais ou aumento da aversão ao risco podem levar a cotação acima de R$ 5,60.