Surpreendendo o mercado brasileiro, o Ibovespa (IBOV), principal índice acionário do Brasil, consagrou uma das maiores valorizações globais no 1º trimestre de 2025. O movimento difere do que ocorreu em 2024, quando o índice registrou a pior queda entre os mercados globais.
Do início deste ano até o fechamento da sessão do dia 1º de abril, o Ibovespa valorizou +9,03%, conforme dados disponíveis no TradingView, figurando entre o top cinco maiores altas do período, no grupo dos 25 maiores índices acionários do mundo.
O bom momento do índice brasileiro o colocou à frente das Bolsas dos EUA, com os principais índices de Wall Street acumulando baixas no início do ano, em reflexo, sobretudo, ao acirramento da guerra comercial iniciada com as novas medidas tarifárias de Donald Trump desde janeiro, quando tomou posse como presidente norte-americano.
Para Felipe Uchida, sócio da Gestora Equus Capital, o que levou o Ibovespa à forte valorização no 1TRI25 foi o aumento do fluxo de capital estrangeiro, o desempenho positivo de empresas específicas e um cenário macroeconômico favorável.
“O interesse dos investidores internacionais cresceu significativamente, atraído por oportunidades no mercado brasileiro em meio a um ambiente global desafiador”, disse o executivo.
Enquanto isso, o coordenador do mestrado profissional em Controladoria e Finanças da Faculdade FIPECAFI, George Sales, destacou, além do investimento dos estrangeiros, outros pontos positivos que afetaram o mercado brasileiro.
Segundo ele, houve uma melhora no cenário externo, no quesito de perspectiva de estímulos econômicos na China, maior parceiro comercial do Brasil, o que deixou o mercado otimista – considerando também o peso da Vale (VALE3), maior mineradora do Brasil, sobre o Ibovespa, que sentiu os impactos diretos dos rumos econômicos no país asiático.
O valuation atrativo das ações brasileiras, foi outro ponto importante, disse Sales. “As ações brasileiras estavam sendo negociadas a múltiplos de preço/lucro (P/L) abaixo da média histórica, tornando-se atraentes para investidores em busca de oportunidades de valorização”, afirmou.
Confira os melhores e piores desempenhos globais
Maiores altas
Índice | País | Desempenho no 1TRI25 |
DAX (DAX) | Alemanha | +11,80% |
MILANO ITALIA BORSA (FTMB) | Itália | +11,32% |
Ibovespa (IBOV) | Brasil | +9,03% |
South Africa Top 40 (SA40) | África do Sul | +8,81% |
STOXX 50 (SXSE) | Zona do Euro | +8,06% |
Maiores baixas
Índice | País | Desempenho no 1TRI25 |
Japan 225 (NI225) | Japão | -10,56% |
Nasdaq Composite Index (IXIC) | EUA | -10,07% |
IDX 30 (IDX30) | Indonésia | -8,87% |
IDX Composite (COMPOSITE) | Indonésia | -8,20% |
S&P MERVAL (IMV) | Argentina | -6,99% |
Efeito Trump ajuda Ibovespa a superar Wall Street
Desde que o presidente norte-americano Donald Trump foi eleito, em novembro do ano passado, já havia expectativa de que iniciaria uma nova política tarifária nos EUA, o que começou logo que ele foi empossado.
Desde janeiro, o republicano já anunciou uma série de tarifas para a China, UE (União Europeia), México, Canadá, e outros parceiros comerciais, incluindo o Brasil. No anúncio mais recentes, feito nesta quarta-feira (2), Trump impôs novas taxas de 10% para o Brasil, e outras que chegaram a 49%, no caso do Camboja, argumentando ser necessário uma reciprocidade, ao passo que os outros países cobram tarifas maiores sobre os produtos importados dos EUA.
“Os nossos contribuintes têm sido roubados nos últimos 50 anos, mas isso não vai mais acontecer (…) Esse é um dos dias mais importantes da história americana. É a nossa declaração de independência econômica. Trabalhadores americanos foram deixados de lado enquanto outras nações ficaram ricas as nossas custas”, alegou Trump no anúncio.
Na avaliação de George Sales, o fato dos índices de Wall Street terem sido tão pressionados, seguindo no sentido oposto ao Ibovespa e aos índices europeus, se deve a essas medidas tarifárias, que aumentaram a incerteza econômica e pressionaram negativamente os mercados acionários dos EUA.
“A combinação de tarifas elevadas e sinais de desaceleração econômica levou a temores de estagflação — uma situação caracterizada por baixo crescimento econômico e alta inflação. Isso afetou negativamente o sentimento dos investidores e contribuiu para a queda dos índices”, disse o especialista.
Além disso, em sua perspectiva, o enfraquecimento das ações do setor de tecnologia, a exemplo da Nvidia (NVDC34), Tesla (TSLA34), por conta das preocupações com custos crescentes e retornos futuros incertos, também impactou negativamente o Nasdaq.
Considerando todos esses elementos, Felipe Uchida ressaltou que para o trimestre iniciado agora em abril as expectativas são “cautelosamente otimistas”, com base em 3 fatores.
“A continuidade do fluxo de investimento estrangeiro pode seguir impulsionando o índice, desde que o Brasil permaneça atrativo em meio às incertezas globais. Além disso, a política monetária doméstica tende a exercer um papel relevante”, sinalizou.
No entanto, o executivo prosseguiu a análise afirmando que o quadro externo seguirá como um fator de risco, “especialmente em relação à evolução das políticas comerciais dos EUA e seus impactos na economia global, que podem influenciar diretamente o desempenho do Ibovespa”.
Setores de maior impacto
Na esteira dos setores que fizeram mais preço no Ibovespa, as commodities mostraram recuperação, com os papéis preferenciais da Petrobras (PETR4) valorizando na casa dos 2% e a Vale (VALE3) chegando a ganhar mais de 8% nos três primeiros meses do ano.
O destaque positivo, na visão de Uchida, foi o segmento de alimentos, com a Minerva (BEEF3) registrando uma alta expressiva de 43% em março. Por outro lado, o setor de cosméticos teve o pior desempenho, em sua avaliação, com os papéis ordinários da Natura (NTCO3) acumulando queda de 22,7% no mesmo período.
George Sales concordou com a análise sobre a área de cosméticos do Ibovespa, reforçando que o mau desempenho refletiu desafios operacionais e resultados abaixo das expectativas.
“A Azul (AZUL4) também enfrentou dificuldades, com uma desvalorização de 14,99% no mesmo período, possivelmente devido a fatores como aumento de custos operacionais e volatilidade no setor”, afirmou.
Por sua vez, o especialista indicou que os setores de educação e varejo foram destaques positivos para o Ibovespa no 1TRI25.
“A Cogna (COGN3) liderou as valorizações no período, com uma impressionante alta de 91,7%. Esse desempenho reflete uma recuperação após quedas significativas em 2024, indicando uma retomada de confiança dos investidores no setor educacional”, disse Sales.
Já no caso do varejo, o profissional da FIPECAFI vê que as valorizações de Magalu (MGLU3) e Carrefour (CRFB3), de 56,2% e 33,5%, respectivamente, sugerem uma recuperação no consumo, bem como um otimismo com a performance do segmento no Brasil.