Carbono Oculto

Da Faria Lima à B3: como a Reag cresceu e chamou atenção da PF; entenda

O crescimento da Reag se deu, até onde se sabe, por meio de negócios envolvendo diversas subsidiárias

Fonte: Divulgação
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A Reag Investimentos é alvo da Carbono Oculto, megaoperação da PF (Polícia Federal). Quando os mandados de busca e apreensão foram anunciados, as ações da companhia derreteram. Apesar disso, a empresa teve uma ascensão considerada rápida para uma administradora fiduciária — atualmente ocupa o primeiro lugar entre os pares independentes.

O crescimento da Reag se deu, até onde se sabe, por meio de negócios envolvendo diversas subsidiárias. No momento, a companhia administra mais de R$ 340 bilhões, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais).

Segundo informações obtidas pelo NeoFeed, boatos nos escritórios da Faria Lima indicam que o choque não foi apenas pelos mandados ou pelo fato de a empresa ser investigada, mas pela natureza e pelos parceiros/clientes das atividades paralelas da gestora.

“Pouquíssimas pessoas do mercado faziam negócios com ela por diligência. Muita gente sentia que havia algo estranho nas operações, havia pouca transparência nas estruturas. Mas fato é que era uma empresa grande, e uma operação dessas gera quebra de confiança nas instituições do mercado”, disse uma fonte próxima ao assunto, que preferiu não se identificar.

Os mandados fazem parte de uma investigação da PF sobre a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) em negócios da economia formal. Na última quinta-feira (28), agentes chegaram à sede da Reag, na Alameda Gabriel Monteiro, zona oeste de São Paulo. Além disso, também visitaram outras administradoras em três endereços da Avenida Faria Lima, que concentra as principais empresas financeiras do país.

Após o ocorrido, e diante da queda das ações na B3, a Reag emitiu nota afirmando que “tratava-se de procedimento investigativo em curso. As companhias esclarecem que estão colaborando integralmente com as autoridades competentes, fornecendo informações e documentos solicitados, e permanecerão à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais que se fizerem necessários”.

Crescimento do volume financeiro da Reag

Fundada em 2013 por João Carlos Mansur, a Reag lidera o mercado independente, ficando atrás apenas dos grandes bancos brasileiros. Até julho de 2025, era a maior casa independente do país, com R$ 341,5 bilhões sob gestão, segundo ranking mensal da Anbima.

O forte crescimento da gestora ocorreu nos últimos dois anos. Desde 2023, o patrimônio líquido dobrou com a aquisição de outras assets, como Rapier, Quadrante, Quasar Asset e Empírica.

Além disso, em relatório de julho de 2024, a Fitch destacou o crescimento expressivo da Reag: +118% em 2021, +28% em 2022 e +141% em 2023, encerrando dezembro de 2023 com aproximadamente R$ 140 bilhões (excluindo dupla contagem).

No final de 2024, a Reag anunciou a compra da Berkana e da Hieon, nomeando Robert van Dijk (ex-Anbima, ex-Bram/Bradesco e Votorantim AM) como CEO das operações consolidadas.

Em janeiro de 2025, a empresa estreou na B3 com o ticker REAG3, por meio de um IPO reverso envolvendo a antiga GetNinjas, negociando no Novo Mercado.

Balanços trimestrais da GetNinjas (2023-2024)

TrimestreReceita Líquida (R$ mi)Lucro/Prejuízo Líquido (R$ mi)
1T2315,9 (+18%)-2,1 (-43,2%)
2T2315,9 (+19%)1,5 (+117%)
3T2315,5 (+8%)4,2 (-33%)
4T2314,4 (+7%)0,028 (-500%)
1T2416,7 (+5%)2,9 (-42%)
2T2415,7 (-1%)6,6 (+334%)
3T2414,0 (-11%)3,8 (-10%)
Fonte: BP Money / Relatórios da Reag Investimentos

Apesar da expansão via aquisições, a estabilidade operacional ainda não era plenamente refletida no período.

Riscos de contaminação do mercado

Os fundos da Reag que estão sob investigação da PF são majoritariamente fechados, segundo a fonte do NeoFeed. Como grande parte da custódia não circula em plataformas de investimento nem está nas carteiras de family offices, não há risco de contaminação do mercado.

Por fim, a Reag reforçou em nota que segue colaborando integralmente com a operação Carbono Oculto e está “confiante no regular funcionamento das instituições e da justiça, com a certeza de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos”.

Entenda Operação Carbono Oculto

Informações divulgadas pelo Governo federal explicam que objetivo da ação da Operação Carbono Oculto é desmantelar esquema de fraudes e de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.

Com isso, estão na mira da investigação vários elos da cadeia de combustíveis controlados pelo crime organizado, desde a importação, produção, distribuição e comercialização ao consumidor final até os elos finais de ocultação e blindagem do patrimônio, via fintechs e fundos de investimentos.

Estão sendo cumpridos mandados de busca e apreensão em cerca de 350 alvos – pessoas físicas e jurídicas – situados em oito estados: São Paulo, Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio de Janeiro e Santa Catarina. De acordo com a Receita Federa, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) também ingressou com ações judiciais cíveis de bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em bens dos envolvidos, incluindo imóveis e veículos, para a garantia do crédito tributário.

As investigações apontam que o sofisticado esquema engendrado pela organização criminosa — o PCC —, ao mesmo tempo que lavava o dinheiro com crime, obtinha altos lucros na cadeia produtiva de combustíveis. Centenas de empresas operacionais na fraude possibilitava dissimular os recursos de origem criminosa. A sonegação fiscal e a adulteração de produtos elevava os lucros e prejudicavam os consumidores e a sociedade.

Operações financeiras realizadas por meio de fintechs, em vez de bancos tradicionais, dificultavam o rastreamento dos valores transacionados. Logo, o lucro auferido, bem como os recursos lavados do crime eram blindados em fundos de investimentos com diversas camadas de ocultação para tentar impedir a identificação dos reais beneficiários.