
A captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA recolocou a Chevron no centro do tabuleiro geopolítico e energético da Venezuela. Além disso, única grande petroleira americana ainda operando no país, a companhia aparece como o principal vetor para viabilizar a promessa do presidente Donald Trump de reativar a indústria petrolífera venezuelana e ampliar a presença dos EUA no setor.
Em declaração após a operação militar, Trump afirmou que “as maiores empresas de petróleo dos Estados Unidos” irão investir bilhões de dólares para recuperar a infraestrutura do país e gerar receitas. Embora o presidente não tenha citado nomes, o mercado rapidamente voltou os olhos para a Chevron, que mantém ativos estratégicos em um dos maiores reservatórios de petróleo do mundo.
Presença única em um país isolado
A Chevron é, hoje, a maior investidora estrangeira na Venezuela. Enquanto concorrentes globais deixaram o país ou tiveram seus ativos expropriados ao longo das últimas décadas, a empresa optou por permanecer.
A Chevron produz cerca de 200 a 300 mil barris por dia na Venezuela, cerca de um terço da produção atual de 1 milhão, bem abaixo do pico de 3 milhões em 2013.
As operações da companhia concentram-se em joint ventures na Faixa do Orinoco e em projeto próximo ao Lago Maracaibo. Ao todo, a Chevron e suas parceiras empregam cerca de 3 mil pessoas na Venezuela.
Reservas gigantes e infraestrutura degradada
A atratividade do país vai além do contexto político. A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris, segundo dados oficiais e da Opep. O desafio está na capacidade de transformar esse potencial em produção efetiva.
Anos de subinvestimento, má gestão e sanções internacionais deixaram refinarias, oleodutos e campos em estado crítico. Nesse cenário, a Chevron surge como uma das poucas empresas com conhecimento operacional, presença local e autorização regulatória para atuar no curto prazo.
Em nota divulgada no sábado, a companhia afirmou que está focada na segurança de seus funcionários e na integridade de seus ativos, sem detalhar eventuais planos de expansão.
Histórico afasta concorrentes
O histórico da Venezuela ainda gera cautela entre grandes petroleiras. Por exemplo, em 2007, durante o governo de Hugo Chávez, empresas como Exxon Mobil e ConocoPhillips deixaram o país após a nacionalização de ativos e mudanças contratuais que elevaram royalties e impostos.
As duas companhias recorreram à arbitragem internacional e reivindicaram indenizações bilionárias, recebendo apenas parte dos valores após anos de disputa. Esse histórico ajuda a explicar por que eventuais novos entrantes devem aguardar sinais mais claros de estabilidade antes de retornar.
“Empresas de petróleo sempre querem petróleo, e a Venezuela tem muito. Mas elas precisam de estabilidade política, o que vai além da remoção de Maduro”, avalia José Ignacio Hernández, especialista em direito internacional e dívida pública.
Chevron como ponte estratégica
Mesmo sob sanções, a Chevron manteve operações graças a licenças especiais concedidas por Washington, que permitiram a exportação de petróleo venezuelano para os EUA. A empresa também fez lobby tanto no governo Joe Biden quanto no de Trump para preservar sua posição singular no país.
“Estamos comprometidos com o povo venezuelano e gostaríamos de participar da reconstrução econômica quando as circunstâncias mudarem”, afirmou Mike Wirth, CEO da Chevron, em novembro, durante um fórum de investimentos em Washington.
Lideranças da oposição venezuelana, como María Corina Machado, veem o petróleo operado pela Chevron como peça-chave para a recuperação econômica. Nesse sentido, o plano do grupo prevê ampliar a produção em milhões de barris por dia na próxima década.
Novo capítulo no petróleo venezuelano
A captura de Maduro adiciona um novo elemento a uma disputa histórica pelo controle do petróleo venezuelano, marcada por nacionalizações, sanções e embates diplomáticos. Além disso, ao sinalizar que empresas americanas liderarão a modernização do setor, Trump reforça o papel da Chevron como principal candidata a representar interesses dos EUA no país.
Resta saber como a transição política será conduzida, quais garantias jurídicas serão oferecidas e se o ambiente permitirá a entrada de novos investidores. Até lá, a Chevron segue como o ativo mais estratégico dos Estados Unidos no coração da indústria petrolífera venezuelana.