
A aprovação política do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia abre uma nova frente de narrativa para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) num ano que já começa sob lógica eleitoral.
Mesmo antes de qualquer efeito econômico aparecer no bolso do eleitor, o pacto pode ser explorado como ativo de comunicação para diminuir resistências no centro e em setores produtivos, avalia o cientista político Josué Medeiros.
O acordo, negociado desde 1999 e destravado politicamente no fim de 2024, prevê a eliminação gradual de tarifas sobre cerca de 91% do comércio entre os blocos e cria as bases para uma área de livre-comércio.
Na leitura de Medeiros, o ganho imediato de Lula é político: o acordo funciona como “vacina” contra um dos ataques mais recorrentes ao PT, o de que a esquerda não valoriza economia de mercado, empresariado e agenda de integração comercial.
Ao reivindicar protagonismo no tratado, Lula ganha argumento de defesa e ofensiva, mesmo que os resultados práticos ainda demorem a se materializar. “Em campanha eleitoral, você precisa de elementos para atacar o adversário, mas também de vacinas contra os ataques que você vai receber”, afirmou.
O ponto central é que campanhas não se sustentam apenas em promessas, mas em blindagens, e o acordo vira carimbo de credibilidade para rebater a acusação de hostilidade ao mercado.
“Vai ser possível explorar estatísticas: esse acordo vai fazer com que exportações brasileiras cheguem mais à Europa, com que produtos cheguem mais barato aqui. Esse tipo de dado costuma impactar positivamente o eleitor, porque ele fica numa expectativa”, disse.
Hoje produtos brasileiros enfrentam tarifas elevadas no mercado europeu, enquanto bens industriais europeus entram no Mercosul com alíquotas que chegam a 35% no caso de automóveis e até 20% em máquinas e químicos. O discurso eleitoral pode traduzir isso em expectativa de mais acesso a mercados e maior previsibilidade para exportadores.
Menor rejeição
Medeiros argumenta que, numa sociedade polarizada, o ganho não precisa vir da migração direta de votos. A meta é reduzir rejeição e desmobilizar pânicos em segmentos que não escolheriam o PT, mas aceitariam uma vitória de Lula como administrável, sem ruptura. Isso tende a favorecer quem está no Planalto e tenta consolidar a reeleição, afirma.
O acordo do Mercosul, nessa lógica, conversa com a elite econômica e com formadores de opinião que pressionam por pragmatismo comercial. Ao favorecer exportações e sinalizar abertura, a iniciativa pode reduzir resistências no agro e na indústria, diminuindo incentivos para uma campanha agressiva contra o governo.
“Isso ajuda quem está na frente, quem busca reeleição. Para o Lula, interessa muito que seja uma eleição normal e não uma eleição conflagrada.”
Ele citou ainda pesquisas que indicam aprovação ampla da condução da política externa e comercial, acima da intenção de voto do presidente. “Isso mostra que há gente que não vai votar no Lula, mas deixa de achar que o Brasil vai virar uma Venezuela. É um ganho enorme num ambiente polarizado.”