
Gostar de vinho é algo quase intuitivo. Já degustar vinho, porém, é um passo além. De forma simples, beber nem sempre significa degustar. A degustação tem caráter sensorial: é uma avaliação atenta, feita com os sentidos, que ultrapassa o ato de consumir o vinho em si.
Degustar é observar, cheirar, provar com calma e refletir sobre o que o vinho entrega em cada etapa. É um exercício de presença e também de curiosidade.
As três etapas da degustação de vinho
A degustação clássica é dividida em três etapas fundamentais: análise visual, olfativa e gustativa. Cada uma delas revela informações importantes sobre o vinho.
Antes de começar, sirva cerca de ¼ da taça. Em taças maiores, como a Bordeaux (aproximadamente 580 ml), isso significa cerca de 120 a 150 ml. Já na taça ISO, menor e usada para degustações técnicas (cerca de 210 ml), a lógica é a mesma, servindo em torno de 50 ml.
Essa medida ajuda a manter a temperatura correta por mais tempo e facilita a liberação dos aromas.
Além disso, prefira um ambiente bem iluminado, com luz branca e um fundo branco, que auxiliam na análise visual. Atenção também à temperatura de serviço do vinho e evite perfumes, cosméticos, cremes dentais fortes, chicletes ou alimentos muito intensos antes da degustação, pois tudo isso interfere na percepção aromática.
Análise visual: o primeiro contato com o vinho
A primeira etapa é a visual. Incline a taça sobre um fundo branco e observe atentamente a cor, a intensidade, o brilho e a limpidez do vinho.
Nesse momento, é possível identificar se há sedimentos, turbidez ou até algum indício de defeito visual. A tonalidade também pode dar pistas sobre a uva, o estilo do vinho e até se houve envelhecimento em garrafa ou em barrica.
A ausência de brilho, por exemplo, pode indicar um problema. Já a profundidade da cor costuma estar associada à concentração e à estrutura do vinho.
Análise olfativa: memória e sensibilidade
Na segunda etapa, o vinho vai ao nariz. Alguns rótulos já se mostram expressivos mesmo antes de girar a taça. Aqui, o desafio é ativar a memória olfativa e tentar nomear o que está sendo sentido.
Não existe resposta certa ou errada. A dica é usar referências pessoais: frutas, flores, ervas, alimentos, terra molhada, madeira. Quanto mais você treina o olfato no dia a dia, mais fácil fica reconhecer aromas no vinho.
Alguns vinhos precisam de mais tempo em contato com o oxigênio para liberar seus aromas. Quanto maior a complexidade, mais camadas aromáticas tendem a aparecer.
É nessa fase que surgem os chamados aromas primários, secundários e terciários, além da possibilidade de identificar algum aroma defeituoso, que indica desvio de qualidade.
Análise gustativa: o vinho em movimento
A terceira etapa é a gustativa. Leve o vinho à boca sem pressa e permita que ele percorra o paladar. Uma boa prática é “avinhar” a boca: o primeiro gole prepara as papilas gustativas. No segundo, a percepção se torna mais precisa.
Observe textura, acidez, taninos, corpo, persistência e equilíbrio. Em vinhos mais complexos, é possível notar como aromas e sabores evoluem com o tempo na taça, tornando a experiência ainda mais rica.
Depois de entender as etapas básicas, é possível explorar propostas diferentes de degustação, que ampliam ainda mais a experiência.
Degustação vertical: o tempo como protagonista
Na degustação vertical, prova-se o mesmo vinho em diferentes safras. O objetivo é entender como o terroir e as condições climáticas de cada ano influenciam o resultado final.
Além disso, é uma excelente forma de observar a evolução do vinho ao longo do tempo. Um mesmo rótulo pode apresentar mudanças significativas de uma safra para outra.
Degustação horizontal: comparação em foco
Na degustação horizontal, o padrão comparativo é definido previamente. Pode ser uma mesma uva em países diferentes ou a mesma uva e país, mas em regiões distintas.
Um exemplo clássico é comparar Cabernet Sauvignon de diferentes países ou regiões. Essa prática deixa claro como clima, solo e técnicas de vinificação impactam diretamente o perfil do vinho.
Degustação às cegas: sentidos em primeiro lugar
Na degustação às cegas, uma pessoa escolhe os vinhos e esconde os rótulos. O objetivo é eliminar qualquer influência visual ou emocional ligada à marca.
Aqui, o vinho fala por si. É uma experiência instigante, que desafia preconceitos e estimula a imaginação ao tentar identificar uva, país, passagem por barrica ou se o vinho é varietal ou blend.
Muitos se surpreendem, e mudam conceitos, após uma boa degustação às cegas.