
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a misturar elogios e cobrança ao comentar a política monetária. Nesta quinta-feira (5), ele disse confiar no trabalho do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e exaltou a “qualidade” do chefe da autoridade monetária. Ao mesmo tempo, afirmou que repete “todos os dias” que considera juros elevados.
A declaração ocorreu em entrevista ao UOL e chega num momento em que o mercado acompanha, com lupa, a transição do BC para um ciclo de corte da Selic. Em janeiro, o Copom manteve a taxa básica em 15% ao ano. Ainda assim, sinalizou que deve iniciar a flexibilização na próxima reunião, em março.
Selic em 15% e o “sinal” para março: o pano de fundo
Na prática, o BC tenta equilibrar duas forças que caminham em direções diferentes. De um lado, há sinais de melhora em alguns indicadores e uma leitura de que a economia perdeu tração em partes do ciclo. De outro, a inflação e as expectativas seguem exigindo uma postura restritiva por mais tempo. Esse cenário ajuda a explicar por que o Copom manteve a Selic no patamar atual e, ainda assim, abriu a porta para o início do corte no mês que vem.
Lula muda o tom, mas mantém a pressão sobre os juros
O recado de Lula combina dois objetivos. Primeiro, sinaliza respaldo político a Galípolo, o que reduz ruído institucional num tema sensível como a autonomia do BC. Segundo, mantém viva a crítica ao custo do dinheiro, que pesa no crédito, na atividade e no humor do empresariado.
Por isso, o gesto tem leitura dupla no mercado. Ele suaviza o ambiente ao reforçar confiança na liderança do BC. Porém, também reforça que juros altos seguem no centro do debate político, especialmente com a aproximação de decisões que podem mexer com a curva de DI e com a Bolsa.
O que observar até a reunião do Copom
Daqui até março, a direção do debate deve ficar mais dependente do noticiário econômico e das expectativas. Em outras palavras, cada dado de inflação, atividade e trabalho ganha poder de “puxar” o ritmo do corte.
Além disso, a comunicação do BC seguirá no foco. O mercado vai tentar medir se o Copom conseguirá iniciar a flexibilização sem perder o controle das expectativas, o ponto que, no fim do dia, determina quão longo pode ser o ciclo e até onde a Selic pode recuar.